sexta-feira, 27 de março de 2009

Doces melodias, versos nem tanto


Quando se fala nos grandes compositores da música pop entre o final dos anos 70 e início dos 80, quais os nomes que imediatamente vêm à cabeça? Com certeza, Morrissey e sua eterna amargura, Ian McCulloch, que sonhou um dia em compor “a melhor canção de todos os tempos” e quase chegou lá com ‘The Killing Moon’, Michael Stipe e seus versos enigmáticos, Mark E. Smith (The Fall) e suas imagens surpreendentes, as neuroses do americano médio nas canções de David Byrne, a crônica do baixo mundo de Marc Almond (Soft Cell), o abismo sem fim do suicida Ian Curtis – e ainda tem Robert Smith, Elvis Costello, Paul Weller, Sting, Kevin Rowland (Dexy’s Midnight Runners), Bono, ... Cada um à sua maneira deu uma contribuição relevante à ‘jukebox’ daquele período. Do inglês PADDY McALOON, poucos se lembram.

Sua banda, o PREFAB SPROUT, teve um álbum lançado aqui à época – aliás, um não, ‘o’ álbum: ‘Steve McQueen’, de 1985 (aqui chamado ‘Two Wheels Good’, conforme o título que recebeu nos EUA por conta da negativa da família do falecido ator pro uso do nome), segundo da carreira do grupo. No Brasil, foi parte de um pacote chamado “New Rock Collection”, que tinha uma enorme tarja amarela “decorando” os LP’s, e do qual pouca coisa valia a pena: o Big Audio Dynamite, do ex-Clash Mick Jones, o Lone Justice de Maria McKee e o R.E.M. (aportando então no Brasil via ‘Fables of Reconstitution’, seu terceiro álbum). ‘Steve McQueen’/’Two Wheels Good’ é daqueles álbuns com inequívoca vocação cult, por conta da sofisticação (e simplicidade) dos arranjos, da feliz combinação de elementos da soul music (dá de chinelo no Style Council de Paul Weller), do country e até leves tinturas jazzísticas, além da beleza das melodias, remetendo ao melhor do cancioneiro popular americano (de Cole Porter a Burt Bacharah, passando pelo rei da Broadway Stephen Sondheim). Mas o filé mesmo são as letras de McAloon.

O cara é mestre em colocar no papel toda a espécie de sentimentos (por vezes contraditórios) e situações (no mais das vezes desagradáveis) que rondam os relacionamentos amororos. Sua canção mais conhecida mundo afora – não quer dizer que tenha se tornado um hit fora da Inglaterra, muito pelo contrário, embora tenha chamado a atenção do mercado americano ao som do grupo – é a balada corta-coração ‘When Love Breaks Down’, responsável também pela melhor interpretação de Paddy, lembrando – no tom de arrebatamento, óbvio, porque nos recursos vocais seria cruel a comparação – seu ídolo Marvin Gaye. O curioso é que a canção precisou ser lançada quatro vezes em single na Grã-Bretanha pra finalmente estourar. Dá uma sacada nos versos:

My love and I, we work well together
But often we're apart
Absence makes the heart lose weight, yeah,
Till love breaks down, love breaks down

Oh my, oh my, have you seen the weather
The sweet September rain
Rain on me like no other
Until I drown, until I drown

When love breaks down
The things you do
To stop the truth from hurting you

When love breaks down
The lies we tell,
They only serve to fool ourselves
...

My love and I, we are boxing clever
She'll never crowd me out
Fall be free as old confetti
And paint the town, paint the town
...

When love breaks down
You join the wrecks
Who leave their hearts for easy sex
When love breaks down
When love breaks down
”.

Outra ótima canção é ‘Appetite’, sobre o desejo e a dificuldade de controlá-lo:

Please be careful is never careful
Till it hears the gun
She will always pay the bills
For the having big fun
He talks so well, what can you do,
It's pretty plain he means it too
I don't want to sell you lines,
I only mean to do you right
But I'm a simple slave of appetite,
I'm a poor slave of appetite

Hunger howls, hungers red,
Hungers stays till it's fed
Then it some h-h-how fades,
Then it somehow leaves your sight
Depending on it's appetite,
Depending on your appetite

So if you take - Then put back good
If you steal - be Robin Hood
If your eyes are wanting all you see
Then I think I'll name you after me
I think I'll call you appetite

Here she is with two small problems
And the best part of the blame
Wishes she could call him heartache
But it's not a boy's name

If you grow up to be, just like him, just like me
You're fighting for exclusive rights,
For honeymoons each sleepless night
In which case I'll call you appetite
Yes I think I'll call you appetite


Sobre a incapacidade de alguns em se manterem fiéis a alguém e as tentativas de se justificar, ‘Horsin’ Around’:

It's me again your worthless friend or foe
I somehow let that lovely creature down
Horsin' around, horsin' around
Some things we check and double check and lose
I guess I let that little vow get lost
Forgettin' the cost, forgettin' the cost

Quick to forgive and so slow to blame, the very thought fills me with shame
But that didn't stop it happening

The thrill of it - can I call it that ? - was cheap
And feeling cheap's the only thing you keep
It's so unsightly to walk from her arms so lightly
Selling it all up the swanee

Horsin' around's a serious business, last thing you'd want somebody to witness
I was the fool who always presumed that I'd wear the shoes and you'd be the doormat
You wonder why my hands are still shaking : In need of a cry the shoulders are taken...

I deserve to be kicked so badly
You deserve more than I sold you for
Horsin' around, horsin' around

The moral is whatever else you learn
You shouldn't let that lovely creature down
Lord just blind me, don't let her innocent eyes remind me
Selling it all up the swanee
Horsin' around, horsin' around


E sobre as mancadas que se dá e o consequente arrependimento, ‘Bonny’:

I spend the days with my vanity
I'm lost in heaven and I'm lost to earth
Didn't give you minutes not even moments
All my life in a tower of foil
Shaded feelings, I don't believe you

When you were there before my eyes
No one planned it took it for granted

I count the hours since you slipped away
I count the hours that I lie awake
I count the minutes and the seconds too
All I stole and I took from you
But Bonny don't live at home, he don't live at home
Words don't hold you, broken soldiers
...

All my silence and my strained respect
Missed chances and the same regrets
Kiss the thief and you save the rest
All my insights from retrospect
But Bonny's not coming home, he don't live at home
Save your speeches, flowers are for funerals


Patrick Joseph McAloon nasceu em 7 de junho de 1957 em Newcastle, Inglaterra, e formou o Prefab Sprout em 1977, onde canta, toca guitarra e teclados, dois anos após largar a escola, com seu irmão caçula Martin no baixo, Neil Conti na bateria e Wendy Smith na guitarra e também vocais. O nome estranho tem até hoje origem controversa: a mais frequente história contada por Paddy dizia que interpretou errado um verso da canção ‘Jackson’, de Lee Hazelwood, “hotter than the pepper sprout”, mas outras tantas circularam. O primeiro single do grupo, de 1982, já mostrava qual era (é) a do Prefab: ‘Lions in My Own Garden’ foi escrita para a então namorada de McAloon, que o deixou para estudar francês em Limoges (‘Lions In My Own GardEn’, sacou?). Com a boa recepção e o apoio de gente como o lendário DJ John Peel da Radio One da BBC, o compacto, que era independente, foi relançado por uma major um ano depois, e a ele seguiu-se ‘The Devil Has All the Best Tunes’. O álbum de estreia, ‘Swoon’, é de 84, seguido pelo clássico ‘Steve McQueen’/’Two Wheels God’ no ano seguinte. Os demais discos são ‘From Langley Park to Memphis’ (1988, traz o maior hit do grupo, ‘King of Rock’n’Roll’, 7º lugar na parada britânica), ‘Protest Songs’ (1989), ‘Jordan: The Comeback’ (1990, enorme sucesso no Reino Unido), ‘Andromeda Heights’ (1997, o único além de ‘Two Wheels ...’ lançado no Brasil e o primeiro após um breve período em que Paddy chegou a anunciar o fim da banda) e ‘The Gunman and Other Stories’ (2001), além das compilações ‘The Best of PS: A Life of Surprises’ (1992), ‘38 Carat Collection’ (1999), ‘The Collection’ (2001) e ‘Kings of Rock’N’Roll: The Best of ...’ (2007). Paddy tem também um álbum-solo, o elegiado ‘I Trawl the Megahertz’, lançado em 2003, cujas canções, curiosamente, foram compostas cinco anos antes. É possível que o cara tenha reduzido o ritmo de trabalho depois de ter sido diagnosticada uma grave e progressiva doença que afeta sua retina – Paddy hoje está praticamente cego. De qualquer maneira, sua banda se encontra em estúdio, preparando um novo álbum que deve sair no próximo verão no hemisfério norte. O título, provisório, é ‘Let’s Change the World With Music’. Pra quem já conhece a banda, uma ótima opção pra ir matando a saudade enquanto as novas canções de Paddy não saem, é a reedição (só lá fora, óbvio) de ‘Steve McQueen’ remasterizado e com um disco bônus, que traz oito das músicas do clássico da banda em versões acústicas. Música pop com esta tem de ser, pra flanar nas nuvens, ainda que muitas vezes a motivação das letras seja o inferno vivido no amor.

Nenhum comentário:

Postar um comentário