quarta-feira, 29 de abril de 2009

Paradão (27 e 28/04/2009)‏

Blazing Away (Marianne Faithfull)
Spanish Caravan (Doors)
Party Line (Kinks)
Fiction Romance (Buzzcocks)
(vo)C (Video Hits)
Rachel (Jon Spencer Blues Explosion)
Look a Ghost (Unwound)
Wolf Like Me (TV On The Radio)
Hell is Around the Corner (Tricky)
Times Fly (slow) (Orbital)
Oh Yeah, Maybe Baby (Laura Nyro)
Astronomy Domine (Pink Floyd)
So Sad About Us (The Who)
Chinese Rocks (Ramones)
I’m An Universe (De Falla)
Just Another Let Down (Delta 72)
Hey (Pixies)
Beat Connection (LCD Sound System)
Dr. Octagon (Dr. Octagon)
Moaner (Underworld)

Versinhos bacanas (17)

"Jesus died for somebody's sins but not mine
meltin' in a pot of thieves
wild card up my sleeve
thick heart of stone
my sins my own
they belong to me, me

people say "beware!"
but I don't care
the words are just
rules and regulations to me, me

I-I walk in a room, you know I look so proud
I'm movin' in this here atmosphere, well, anything's allowed
and I go to this here party and I just get bored
until I look out the window, see a sweet young thing
humpin' on the parking meter, leanin' on the parking meter
oh, she looks so good, oh, she looks so fine
and I got this crazy feeling and then I'm gonna ah-ah make her mine
ooh I'll put my spell on her

here she comes
walkin' down the street
here she comes
comin' through my door
here she comes
crawlin' up my stair
here she comes
waltzin' through the hall
in a pretty red dress
and oh, she looks so good, oh, she looks so fine
and I got this crazy feeling that I'm gonna ah-ah make her mine

and then I hear this knockin' on my door
hear this knockin' on my door
and I look up into the big tower clock
and say, "oh my God here's midnight!"
and my baby is walkin' through the door
leanin' on my couch she whispers to me and I take the big plunge
and oh, she was so good and oh, she was so fine
and I'm gonna tell the world that I just ah-ah made her mine

and I said darling, tell me your name, she told me her name
she whispered to me, she told me her name
and her name is, and her name is, and her name is, and her name is G-L-O-R-I-A
G-L-O-R-I-A Gloria G-L-O-R-I-A Gloria
G-L-O-R-I-A Gloria G-L-O-R-I-A Gloria

I was at the stadium
There were twenty thousand girls called their names out to me
Marie and Ruth but to tell you the truth
I didn't hear them I didn't see
I let my eyes rise to the big tower clock
and I heard those bells chimin' in my heart
going ding dong ding dong ding dong ding dong.
ding dong ding dong ding dong ding dong
counting the time, then you came to my room
and you whispered to me and we took the big plunge
and oh. you were so good, oh, you were so fine
and I gotta tell the world that I make her mine make her mine
make her mine make her mine make her mine make her mine

G-L-O-R-I-A Gloria G-L-O-R-I-A Gloria G-L-O-R-I-A Gloria,
G-L-O-R-I-A Gloria

and the tower bells chime, "ding dong" they chime
they're singing, "Jesus died for somebody's sins but not mine."

Gloria G-L-O-R-I-A Gloria G-L-O-R-I-A Gloria G-L-O-R-I-A,
Gloria G-L-O-R-I-A, G-L-O-R-I-A Gloria G-L-O-R-I-A Gloria
G-L-O-R-I-A Gloria G-L-O-R-I-A Gloria G-L-O-R-I-A Gloria,
G-L-O-R-I-A Gloria G-L-O-R-I-A Gloria G-L-O-R-I-A Gloria,
G-L-O-R-I-A Gloria G-L-O-R-I-A Gloria G-L-O-R-I-A Gloria"

(Gloria. Originalmente uma composição de VAN MORRISON gravada pelo seu THEM em 1965, recebeu versos novos – os de abertura, "Jesus morreu pelos pecados de alguém, não os meus ..." – da então estreante PATTI SMITH, deixando a canção ainda mais provocativa. O primeiro álbum da poetisa punk, ‘Horses’, de 1975, com a significativa colaboração de seu band-leader, o enciclopédico Lenny Kaye, produção do ex-Velvet John Cale, e capa do amigo/amante Robert Mapplethorpe – a famosa foto em preto-e-branco em que Patti aparece de visual largadão e cara séria – causou sensação pela altíssima qualidade da poesia de Patti, inspirada nos beats e nos simbolistas franceses – em especial Rimbaud, cuja descoberta ela diz tê-la salvo de um futuro medíocre. Disco de cabeceira de Michael Stipe e Bono Vox.)


Patti: an american original

Frases e diálogos inesquecíveis (17)

'Aaaaah, Arsenal! Ah, Oh, Aston Villa! Blackburn Rovers! Oh, Ah, Oh, … aaaaahhhhh!

(De um cliente do Sexy World, endereço quente do Soho londrino, durante e logo após o serviço prestado por uma funcionária, que irá orientar Maggie, uma viúva de meia-idade que precisa desesperadamente arrumar uma grana para o tratamento do neto doente. Interpretada magistralmente pela grande Marianne Faithfull, ela se tornará a sensação do local sob o codinome IRINA PALM – título da película do diretor Sam Garbasky, melhor filme europeu no David Di Donatello 2008 e prêmio da audiência em Berlim 2007. Não fosse também pela trama, a condução segura de Garbasky e algumas sequências impagáveis – como a do chá de Maggie com as amigas, mais para o final do filme, e a do encontro/acerto de contas com uma delas no armazém, em que Maggie apreoveita pra exercitar seu mordaz humor britânico, já valeria a pena só por Marianne. Ex-namorada de Mick Jagger – co-autora de ‘Sister Morphine’ e a quem ‘As Tears Go By’ é dedicada –, além de grande cantora e compositora de registros clássicos como ‘Broken English’, ‘Strange Weather’ e o ao vivo ‘Blazing Away’, depois de pequenos papéis em um sem-número de filmes, como os recentes ‘Maria Antonieta’, de Sofia Coppola, e no segmento ‘Marais’, de ‘Paris, Eu Te Amo’, dirigido por Gus Van Sant, prova-se também uma atriz de talento.)

A jovem Marianne, antes dos inúmeros excessos ...

... e em IRINA PALM

Eu e Meu brinquedo (7) – WOODY ALLEN

(Fevereiro de 2006)

Lax: "O Dick Cavett (NOTA: famoso apresentador da TV americana, titular de um prestigiado talk show por mais de 40 anos) me contou, faz pelo menos trinta anos, da noite em que vocês dois estavam no Trader Vic, em Los Angeles, nos anos 60, e você falou para ele no jantar: ‘Não tenho tempo, por mais longa que seja a minha vida, de escrever todas as ideias que tenho’. Você ainda tem um estoque ilimitado?"

Allen: "Eu tenho uma porção de ideias. Ainda tenho a mesma sacola – na verdade, tirei as ideias da sacola porque ela rasgou (ri), mas tenho uma igual. Na sala de montage, ainda levo uma sacola e jogo as idéias lá dentro, e quando chega a hora de fazer alguma coisa viva, viro a sacola em cima da cama e cai um bilhão de papéis de todos os tipos, e eu vejo o que tem ali. É muito chato, e separo os mais promissores. Às vezes, eu vejo um e penso: Ah, este daria uma boa idéia, e faço".

Lax: "Você seleciona as ideias de vez em quando? Joga alguma coisa fora com o passar dos anos? Ou, se entrarem na sacola, é porque valem a pena?"

Allen: "Só jogo as ideias fora depois de realizadas."

...

(Verão de 1972, durante as filmagens de ‘O Dorminhoco’)

Lax: "Tem uma ideia clara do personagem para o qual você escreve?"

Allen: "Não existe nenhuma moldagem consciente do meu personagem. Eu nunca penso: Bom, ele não faria isto. Em boates e filmes, faço o que acho engraçado, e é cem por cento instintivo. Eu simplesmente sei que não daria um tiro num sujeito e colocaria dentro de um freezer. Eu faço só o que faço, e ao que parece o personagem vem à tona. O que fica além disso não significa nada para mim. Só quero ser engraçado. E se além de ser engraçado der pra externar uma opinião, ótimo.Não faço nenhum juízo interior do personagem que vai saindo. Só posso descrever esse personagem em termos do que conheço: contemporâneo, neurótico, mais orientado para a vida intelectual, perdedor, homenzinho, não lida bem com máquinas, deslocado no mundo – essa merda toda. Consigo enxergar uma certa parte, mas no começo nunca pensei: Vou fazer de mim mesmo um perdedor e um homenzinho. Não acho que se possa tentar qualquer coisa. Faz-se, e pronto.Tenho certeza que não há nada calculado no Chaplin, mesmo que as pessoas digam: ‘Pois é, o bigode representa a vaidade, os sapatos grandes demais, isto; o jeito de andar, aquilo’. Tenho certeza que o que ele tinha na cabeça era: Ei, isto aqui vai ser engraçado: vou pôr essa calça larga, esses sapatos grandes, um bigode e vou ficar com cara de tonto.É tão acidental, tão contingente. Ao fazer um filme, muita coisa que se planejava não funciona como se pensava que ia funcionar, e na sala de montagem se fazem novas descobertas o tempo todo. Acho que, se não abre espaço para isso, você se transforma num daqueles diretores de cinema literais, que pegam um roteiro e filmam extamente o roteiro. Não estou dizendo que eu só improviso. Mas a experiência de fazer um filme acontecer quando você faz o filme não é igual à de escrever o filme, enquanto uma peça de teatro é noventa e cinco por cento o texto".

...

(Junho de 1974, logo após o sucesso de ‘O Dorminhoco’)

Lax: “Você está tentando discernir o que o público quer, ou está tentando determinar o que pode dar ao público dentro do seu alcance?”

Allen: “Só não quero sair correndo e fazer roteiros que teria feito dois anos atrás, pois estou tentando seguir em frente e não me repetir, para o meu próprio crescimento. Sempre espero que o público vá gostar do filme, mas jamais posso cair na armadilha de fazer algo que não seja exatamente o que eu quero, só para ser apreciado. Melhor não ser apreciado, mas se for bom. Melhor tentar crescer e falhar de maneira humilhante do que jogar no que é certo ou, pior, fazer troca de favores”.

(Woody Allen, em entrevista ao jornalista/amigo/biógrafo Eric Lax, em ‘Conversas com Woody Allen’, editado no Brasil pela CosacNaify no final do ano passado. Lax acompanha a vida e obra de Allen desde 1971, quando entrevistou-o pela primeira vez para a revista New Yorker, que encomendou um perfil do então cineasta iniciante – ‘Um Assaltante Bem Trapalhão’ e ‘Bananas’ haviam sido ambos lançados dois anos antes -, ex-stand-up comediant, autor de duas peças da Broadway e textos para aprópria New Yorker. Como o perfil demorou demais a sair, a revista cancelou a pauta, mas mesmo assim Lax mostrou o texto para Allen, ganhando sua confiança imediatamente. Em 1991, a Cia. Das Letras publicou a ‘Woody Allen, uma biografia’, também de Lax.)

Woody e Penélope em Cannes: 'Vicky, Cristina, Barcelona' rendeu mais um Oscar para uma atriz dirigida por ele

Desmascarando impostores – Legião Urbana

Sim, eu sei que a manchete é agressiva, mas paciência. Tarefa espinhosa essa falar mal de artistas que possuem um séquito de fãs apaixonado assim a ponto de perigar bater em quem ouse criticá-los. No caso, a banda do messias Renato Russo, que por mais de uma década carregou a glória duvidosa de ser uma espécie de porta-voz de uma geração meio perdida, guru espiritual de uma juventude sem rumo (aquela que viveu sua adolescência nos anos 80, tornando-se adulta no começo dos 90): vai fazer qualquer crítica mínima que seja aos caras pra ver o que te acontece! O fã clube do grupo brasiliense é um pessoal meio xiita, daqueles que se ofendem por qualquer restrição que se faça – que eles entendem sempre como desumanidade absoluta, levando a coisa pro lado da ofensa pessoal, mais ou menos como os fãs do Raul Seixas (embora este, convenhamos, tenha sido um artista bem maior, um cara absolutamente original – mas os fãs são tão cegos e caretas como os legionários de primeira ordem).

Bom, mas, enfim, é um trabalho sujo e alguém tem de fazê-lo. Já disse algumas vezes pra amigos chegados e também no Radar, na TVE (segunda à Sexta, 18h), em uma das minhas esporádicas participações: o rock brasileiro dos anos 80, que tanto cativou minha geração, pouquíssimo, quase nada produziu de realmente relevante. Ainda por cima, copiava as bandas inglesas do período na maior cara dura: o Ira! foi desmascarado na Ipanema FM, quando alguém rodou uma música do Jam (infelizmente, não lembro o nome) que é simplesmente igual (até o arranjo de cordas) a ‘Flores em Você’ (quer dizer, o contrário, óbvio); o Paralamas, nem é preciso dizer, antes de descobrir Gilberto Gil e virar uma espécie de "A Cor do Som da geração new wave brasuca" – e também copiar bandas como Madness –, era um sub-Police de quinta categoria (nos dois primeiros álbuns); a Plebe Rude, não é que fosse um caso de cópia desavergonhada de Gang of Four e Clash (embora tenha sido chamada – pejorativamente, é claro – de uma versão "very brazilian" de bandas como essas por Siouxsie & the Banshees, quando da passagem do grupo gótico por aqui, em 1996 – a Plebe fazia a abertura dos shows), mas dá na cara demais sua idolatria. Mas o caso mais sério mesmo é da Legião.

Na época, 1985/1986, era difícil descolar vinis e revistas importados, embora algumas lojas de POA disponibilizassem gravações em cassete de discos básicos do pós-punk. Líamos sobre aqueles grupos e ficávamos com água na boca, contando os trocados e avaliando se valia a pena morrer numa pequena fortuna e encomendar numa loja especializada – ou, com sorte, alcançar a grana pra algum conhecido que fosse passar um tempo em Londres ou nos States. Os baluartes saíram quase todos por aqui: Siouxsie (se bem que não os cinco primeiros, justamente os mais clássicos), Cure (a super banda do momento), Echo & The Bunnymen (um longo caso de amor com o Brasil), New Order (depois seu embrião Joy Division), Fall (pouca coisa, infelizmente), ... Ouvia muito falar de Comsat Angels, Young Marble Giants, Wire (da geração de 77, depois distanciaria-se do som punk mais, digamos, tradicional) e ficava desesperado pra conhecer esses sons todos. Tristes tempos aqueles em que a internet e os programinhas tipo Napstwer, Kazaa, e-mule, etc. não existiam. Na verdade, ruim pros fãs de música pop, bom pros imitadores de sons daquele período, no qual incluíam-se quase todas as bandas brasileiras mais conhecidas da época. O curioso é que quem mais citava essas bandas, principalmente as britânicas, em entrevistas, e ainda por cima como influências suas, eram justamente Renato Russo e cia., o que demonstra que, se de fato eram antenados e tinham inequívoco bom gosto, não menos verdadeira era a tremenda cara-de-pau das criaturas. Faz o teste tu mesmo – sem preconceito –, e confere se eu (e meia dúzia de pentelhos estraga-prazeres) não temos razão:

1 - do primeiro disco da Legião, põe pra tocar ‘Ainda é Cedo’, e logo na sequência ‘A Means to an End’, do Joy Division. Brabo, né? Tirando os vocais, parece que tá se ouvindo a mesma música;

2 - do mesmo disco, coloca ‘Soldados’ e em seguida a manjada ‘New Year’s Day ’, do álbum ‘War’, do U2. Sim, a melodia e o andamento das duas músicas são bem diferentes, mas percebe a progressão de acordes ao piano nas duas gravações. Pelo amor de Deus ... (e isso sem falar no timbres dos dois discos, com bateria e baixo à frente e a guitarra apoiando-se nos harmônicos de Dado Villalobos ... igualzinha à maneira do que fazia The Edge nos primeiros discos dos irlandeses);

3 - depois, pega o segundo álbum da Legião e pôe pra rodar ‘Daniel na Cova dos Leões’. Em seguida, vai na rede e busca lá uma canção chamada ‘Eye of the Lens’ dos Comsat Angels (a gravação é de 1981). O fã mais comprometido vai dizer: "ah, não força, uma canção não tem nada a ver com a outra!". Ah, não? Então repara no arranjo das duas, com os teclados gelados ao fundo, num dado momento tomando a dianteira, a cozinha bem marcada, até a guitarra do Villalobos assumindo um timbre diferente do que vinha utilzando – mas igualzinho ao que fazia o guitarrista (e também vocalista) da banda de Sheffield, Stephen Fellows. Se não estiveres satisfeito, procura no Youtube o clipe de ‘Independence Day’, da mesma banda: nessa canção, ainda há a bateria tribal, com farto uso do surdo – que o Marcelo Bonfá copiou direitinho;

4 - no mesmo disco da Legião, seleciona o hit ‘Quase Sem Querer’. Depois, vai na maior paixão da vida do Renato, os Smiths de Morrissey – que, ao contrário do brasiliense, sabe ser chorão sem autocomiseração exagerada – e bota pra rodar ‘This Charming Man’. Isso mesmo. Compara a levada das duas canções. Não é preciso falar mais nada, acho;

5 - enfim, o tiro de misericórdia (não em mim, please! Só tô fazendo meu trabalho da forma mais honesta possível): em ‘Eu Era Um Lobisomem Juvenil’, os caras são responsáveis por duplo roubo. O primeiro, claro, no título da canção, um dos clássicos do primeiro álbum dos Cramps. Até aí, dá pra encarar como uma singela homenagem – embora, pra meu gosto, essa citação explícita e enfática pegue mal pros caras, que posavam de verdadeiros intelectuais no meio musical da época, não necessitando apelar, portanto, pra expediente tão vulgar (seria o mesmo que uma banda de hard rock qualquer lançasse uma música chamada "Fumaça na Água", "Paranóide" ou "Escadaria pro Céu", ou um cantor soul brasuca gravasse algo como "Alívio Sexual" ou ainda um cantor com notória influência do folk gravasse algo como "Soprando ao Vento", sem serem estas canções exatamente regravações. Aquela coisa tipo "sacou como minah esperteza? Como sou um cara cool, não?"). Mas o pior é a melodia, mesmo: igualzinha a ‘Never Understand’, do cáustico & doce álbum de estréia do Jesus & Mary Chain, ‘Psychocandy’. Sem tirar nem por. Vexatório. Até o "ânh-ãnh rãh" do refrão é rigorosamente idêntico.

É óbvio que no terreno da arte não dá pra ser lá tão caxias. É como disse Lennon certa vez, todo mundo já roubou alguma coisa de alguém – ou, numa citação ainda mais conhecida e bacaninha, de T.S. Eliot: "poetas imaturos imitam; poetas maduros roubam". Mas até pra roubar, convenhamos, há que se ter classe. A Legião não teve. Conseguiu enganar um séquito enorme de fãs – e, talvez, os críticos musicais de sua época (pra mim, os caras não tiveram foi coragem de abrir a boca e comprar briga com uma das mais populares bandas do Brasil e seus fãs intolerantes, na boa, isso sem falar no imenso marketing que os caras moviam e os evidentes interesses de gravadora, empresários, produtores, as rádios comerciais que não iam se queimar com um verdadeiro fenômeno de identificação popular – aí, sim, espontânea. E sem falar que, cá entre nós, esse pessoal não tem lá aquela sofisticação – nem a inquietação, o que é mais grave – que os permita conhecer algo que não esteja inserido neste universo massivo e restritíssimo que compõe a programação básica de nossas infelizes rádios. Melhor deixar assim, então...). Mas com o tempo, a empresa de RR e cia. foi devidamente desmascarada – ao menos por quem não quis deixar-se enganar.


O Joy Division, com o epilético Ian Curtis à frente: a César o que é de César

domingo, 26 de abril de 2009

Um dia, numa locadora perto de você (5) – JONATHAN DEMME

Quem vê a cara de guri, o ar juvenil e a expressão risonha do realizador americano Jonathan Demme nos extras do remake de ‘Sob o Domínio do Mal’ (‘The Manchurian Candidate’, 2004) não imagina que ali está um sujeito que já conta com mais de 60 anos de idade – 65, hoje –, ainda que os cabelos grisalhos já sugiram que a jovialidade do sujeito está mais no espírito do que na data impressa na certidão de nascimento. Os filmes de Demme também são assim: uns mais sérios, outros descompromissados, todos eles, no entanto, têm um frescor e uma leveza que, antes de diluí-los, dão um jeito de suavizar o enredo, sem retirar-lhe a densidade. Ou seja: entretêm sem fazer força, e sem estarem programados pra isso. São assim naturalmente. Prova disso é o clima de diversão que brota espontaneamente na narrativa, no que é muito ajudado pela escolha feliz das canções que compõem a trilha sonora – Demme é grande fã de rock, possui intimidade com o universo pop e tem vários documentários de concertos no currículo: ‘Heart of Gold’ (2005), de Neil Young (disponível nas locadoras) e ‘Storefront Hitchcock’ (1997), de Robyn Hitchcock, ex-líder da mítica banda inglesa The Soft Boys. Hitchcock, por sinal, faz pontas em vários filmes de Demme e canta um número inteiro no recente ‘O Casamento de Rachel’, em que Neil Young também tá presente, mas indiretamente: Tunde Abedimpe, o cantor da grande banda do momento, o TV On The Radio, canta ‘Unknown Legend’ na cena de seu noivado (ele é o cara que vai casar com a Rachel). Além disso, tem gospels (o verdadeiro canto negro americano, favor não confundir com essa música de igreja tacanha que os evangélicos brasucas canhestros produzem em programinhas de TV de auto-ajuda e shows da fé picaretas), samba (batucada e mulatas na festa de casamento), rap, reggae, ... entra de tudo no caldeirão multi-referencial de Demme (não queria usar o termo multiculturalismo, mas não me ocorre outro), mesmo quando o tema do filme é um difícil acerto de contas familiar, tendo por mote a volta pra casa de uma viciada em drogas em recuperação, Kym (Anne Hathaway deveria ter levado o Oscar do ano).

Rachel’, aliás, exemplifica bem como o cinema de Demme conjuga inventividade, densidade e alta capacidade de entretenimento: enquanto a câmera na mão investiga a intimidade das relações familiares – revelações importantes virão à tona ao longo da narrativa –, o espectador não deixa de cativar-se pelo clima de celebração que permeia os preparativos pra festa de casamento. Tamanho poder de diversão, além do fato de seus filmes terem sido marcantes para uma geração que cresceu na década de 80 – ainda ostensivamente reverenciada, parece que nunca vai terminar esse revival – não sensibilizaram, contudo, as distribuidoras nacionais, que ainda mantém fora de catálogo alguns dos principais trabalhos de Demme, mesmo que trate-se do diretor dos blockbusters ‘O Silêncio dos Inocentes’ e ‘Filadélfia’. Quem sabe o sucesso recente do ótimo ‘O Casamento de Rachel’ faça os caras mudarem de ideia. Algumas lacunas incompreensíveis:

MELVIN E HOWARD (MELVIN AND HOWARD, 1980)
Primeiro sucesso – de público e crítica – de Demme, é baseado numa história real e conhecida: o loser Melvin Dummar (Paul Le Mat), um leiteiro sem sorte e constantemente em crise financeira, um belo dia, dirigindo a esmo, cruza com um sujeito esquisito, a quem dá carona. Aparentemente sem maiores consequências, o episódio terá inesperados desdobramentos: dias depois, Melvin recebe uma carta, informando-o que tem para receber parte da herança do excêntrico magnata Howard Hughes – aquele sujeito estranho e maltrapilho a quem dera carona – que acaba de morrer. O filme que impulsionou a carreira de Demme e evidenciou seu gosto por tipos peculiares da sociedade norte-americana, traz o verdadeiro Melvin numa ponta, deu o Oscar de melhor atriz coadjuvante a Mary Steenburgen (como a mulher de Melvin, fanática por aqueles programas de concursos na TV) e de melhor roteiro a Bo Goldman – Robards também foi indicado a melhor coadjuvante.

STOP MAKING SENSE (1984)
Rivaliza com ‘The Last Waltz’, de Scorsese, pelo posto de melhor documentário de rock de todos os tempos. Pra meu gosto, é melhor: desde a concepção do espetáculo – ajuda muito, claro, a cabeça fervilhante de David Byrne – que vai ao encontro da ideia da banda de parecer gente comum, corriqueira apresentando-se num palco. É quase uma obra a quatro mãos, de dois caras que sabem o que fazem – não tem nada aleatório ali, a não ser que o que se capte na hora sirva à idéia geral, do espetáculo sendo construído. O filme começa com o pessoal da técnica montando o palco e Byrne chegando com seu violão numa mão e um aparelho de som portátil na outra. Ajeita-o no chão e dá o play. Ouve-se uma base pré-gravada e ele já manda a primeira – a famosa versão de ‘Psycho Killer’ que por essas bandas é mais conhecida que a original registrada no álbum de estréia, ‘‘77’. Aos poucos, vão entrando Jerry Harrison, o casal Tina & Chris Franz e a super-banda funk que acompanhava os Heads então. Byrne, com seu famoso terno uns dez números acima, movimenta-se o tempo todo – em dado momento, dá o microfone para um câmera, que canta um verso (justamente ‘Stop Making Sense’) de ‘Girlfriend is Better’. É um filme, portanto, vivíssimo, e apenas não um simples concerto filmado de uma banda bacana – então em seu grande momento de exposição.

TOTALMENTE SELVAGEM (SOMETHING WILD, 1986)
Charlie Driggs (Jeff Daniels) é um yuppie meio pateta e entediado, que tem o costume de roubar pequenos objetos em cafés, o que não passa despercebido por Lulu (Melanie Griffith), que o aborda. Num primeiro momento assustado, ele logo vai deixar-se seduzir pela conversa dela, e daí a cair na estrada com a maluca, é só um pulinho. Inicia então uma trip que, ao mesmo tempo que vai sacudir o marasmo da sua vidinha mais-ou-menos, trará perigo real: o ex-marido de Lulu (que tem esse nome em homenagem à personagem de Louise Brooks no clássico expressionista ‘A Caixa de Pandora’, de Pabst – ela usa uma peruquinha morena com corte Chanel que é idêntica à da encrenqueira do filme alemão). O cara é um ex-condenado da justiça durão e não vai aceitar assim tão fácil ver sua mulher mulher nos braços de um banana. Muito comparada a ‘Depois de Horas’ de Scorsese (lançado dois anos antes, porém bem mais dark), a "odisséia" do atrapalhado Charlie, que vai ficar algemado em um quarto de motel por sua ousada (pros moldes dele) parceira, que vai acompanhá-la em um baile de reencontro de sua turma do high-school e será apresentado à sua mãe como seu marido, é um grande barato. Curiosidades:The Feelies, uma das grandes bandas do rock indie americano dos anos 80 (já apareceu no "Paradão" aqui do blog) aparece como The Willies, o grupo que anima o baile do reencontro da turma de Audrey, tocando versões de ‘Fame’ (Bowie/Lennon) e ‘I’m a Believer’ (Monkees), além da faixa-título de seu clássico álbum de estréia, ‘Crazy Rhythms’; o papel do ameaçador marido de Audrey era pra ser do cantor Chris Isaak, então um ilustre desconhecido, mas ele preferiu finalizar seu segundo álbum. Só chegaria ao estrelato quatro anos depois, quando David Lynch incluiu uma versão instrumental de sua canção ‘Wicked Game’ na trilha de ‘Coração Selvagem’, tornando-a o hit que não conseguira ser até então; os diretores independentes John Waters (‘Pink Flamingos’, ‘Hair Spray’) e John Sayles (‘Lone Star’, ‘A Lenda da Vida’) aparecem em pontas: o primeiro como um vendedor de carros usados, o segundo, como um policial de motocicleta. Divertidíssimo, emocionante, um enorme sucesso em sua época – assim como a trilha, que trazia um sacolejante dueto de David Byrne e Célia Cruz, New Order, uma versão soul de ‘Ever Fallen in Love?’, dos Buzzcockz, pelos Fine Young Cannibals, entre outras faixas. Imperdoável que não se encontre nas locadoras.

DE CASO COM A MÁFIA (MARRIED TO THE MOB, 1988)
Comédia ambientada em Miami, em que um agente do FBI, Mike (Matthew Modine), tenta infiltrar-se numa família mafiosa pra pegar o capo Tony ‘The Tiger’ Russo (Dean Stockwell), que acaba de dar cabo do também mafioso Frank DeMarco (Alec Baldwin), que se meteu a besta com a sua amante. DeMarco era casado com a bela Angela (Michelle Pfeiffer), que vinha tentando convencê-lo a abandonar os “negócios” e levar uma vida honesta. No funeral do cara, Russo aproveita pra tentar chegar perto da viúva, mas logo, logo sua mulher, Connie (a excelente Mercedes Ruehl) vai perceber e a confusão só aumenta quando Mike e Angela se dão conta de que estão apaixonados um pelo outro – mas Mike tem de fazer o seu trabalho, que é prender Tony usando Angela. Outro título muito divertido de Demme, mais uma vez com trilha escolhida por David Byrne: tem New Order, Debbie Harry, Ziggy Marley, Brian Eno, Feelies e Tom Tom Club, entre outros.

Acho que não seria pedir demais que, na esteira de um possível lançamento em DVD destes filmes de Demme – em especial ‘Stop Making Sense’ e ‘Totalmente Selvagem’ –, lembrassem também o longa dirigido por David Byrne: ‘Histórias Verdadeiras’ (‘True Stories’, 1986) inspirou o álbum homônimo dos Talking Heads – na verdade, as canções são uma espécie de apêndice do filme – e foi inpirado por notícias de jornal bizarras coletadas por Byrne, que forneceram personagens tipo "A Mulher mais preguiçosa do mundo", um sujeito desesperadamente à procura de casamento, entre outros tipos excêntricos. Tudo bem ao gosto do compositor de ‘Once in a Lifetime’, ‘The Big Country’ e outras canções que voltaram seu olhar para o ridículo do american way of life. Byrne atua como o narrador das histórias, que se passam no já naturalmente peculiar Texas. ‘Histórias Verdadeiras’ passou numa daquelas mostras de cinema de Porto Alegre de antigamente e depois, se não me falha a memória, entrou em cartaz no finado Ponto de Cinema Sesc, sendo desde então esquecido por nossas distribuidoras, mas não pelo público que teve a sorte de vê-lo.

Mas voltando a Demme, que vem demonstrando uma veia política em seus trabalhos recentes (rodou documentários sobre o ex-presidente democrata Jimmy Carter e o ativista Jean Dominique, que lutou pela democracia no Haiti até ser assassinado em 2000, e faz também um pequeno comentário em 'Rachel', mostrando um soldado de licença da ocupação do Iraque, que após o casamento terá de voltar ao oriente médio): o cara tá trabalhando em ‘Neil Young Trunk Show’ e tem programado para o ano que vem um documentário sobre Bob Marley. Seria uma boa que esses trabalhos também pintassem por aqui, mesmo que só nas locadoras.

Demme no set de 'O Casamento de Rachel'

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Paradão (23 e 24/04/2009)

The Chase is Better Than The Catch (Motörhead)
Saint of Killers (Damn Laser Vampires)
Rid of Me (PJ Harvey)
I Wanna Destroy You (Soft Boys)
For What It’s Worth (Buffalo Springfield)
Behind the Sun (Nick Drake)
Killing Me Softly With His Song (Roberta Flack)
St. Elsewhere (Gnarls Barkley)
The Inch (Peaches)
Territory (Sepultura)
I Was a Teenage Werewolf (Cramps)
Gloria (Patti Smith)
Gonne Daddy Gone (Violent Femmes)
King Harvest (Has Sureley Come) (The Band)
Bled White (Elliott Smith)
Don’t Play That Song (Aretha Franklin)
8 Steps to Perfection (Company Flow)
Bingo (M.I.A.)

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Frases e diálogos inesquecíveis (16)


"Dave, this conversation can serve no purpose anymore. Goodbye."

(HAL 9000, a decidida "máquina-homem" de 2001, UMA ODISSÉIA NO ESPAÇO, para o atônito astronauta David Bowman/Keir Dullea. Passadas quatro décadas de seu lançamento, a ficção metafísica de STANLEY KUBRICK ainda impressiona.)

Eu e Meu brinquedo (6) – STANLEY KUBRICK


"Nos filmes, você não está tentando fotografar a realidade, está tentando fotografar a fotografia da realidade."

"Todas as cenas já foram feitas no cinema. Nosso trabalho é sempre fazê-las um pouquinho melhor".

(STANLEY KUBRICK para Jack Nicholson, durante as filmagens de O Iluminado/The Shining, de 1980. A entrevista com Jack tá no documentário IMAGENS DE UMA VIDA, disponível nas locadoras.)

BEATLES Remaster é a mais nova picada na veia que vem por aí

A gente só pode falar da própria experiência, sempre, mas nesse particular tenho depoimentos de vários companheiros de vício idênticos, todos se comportam da mesma maneira. Quase sem controle algum. Sensação permanente de quero mais – do mesmo, do que não se conhece, do novo que saiu semana passada, do velho que não se teve a chance de conhecer ainda, ... A síndrome de abstinência é tão dolorosa quanto a culpa por se gastar mais do que podia – mas se tinha outra alternativa? E o que é pior, por sinal, deixar de consumir, diminuir a dose até a situação melhorar e sofrer com a falta ou se afundar de vez até explodir? Sinceramente, não sei. O certo é que não há recuperação possível. Um dia já cheguei a me iludir que um dia a necessidade seria totalmente satisfeita – ou pelo menos administrável. Hoje, sei que isso jamais vai acontecer. Comprar discos – mesmo depois do advento dos Napsters, Kazaa, Mozilla, e-mule e demais programinhas que surgiram de uma década pra cá – é um vício, e incontornável. E droga boa no mercado é que não falta. Agora mesmo, tão prometendo uma por que os fãs ansiavam desde o início da era do CD, lá por meados (pra nós aqui, ao menos) dos anos 80.

A gravadora EMI anunciou, no início do mês, "o projeto de relançamento de catálogos mais completo, cuidado e importante da música". Sim, isso mesmo: a discografia oficial dos Beatles toda remasterizadinha (ooooobaaaaa!!!!!) vai estar à disposição dos fãs do mundo inteiro em 9 de setembro. Ou seja, os treze álbuns originais (‘Please Please Me’, ‘With the Beatles’, ‘A Hard Day’s Night’, ‘Help!’, ‘For Sale’, ‘Rubber Soul’, ‘Revolver’, ‘Sgt. Pepper's’, ‘Magical Mistery Tour’, o álbum branco, ‘Yellow Submarine’, ‘Abbey Road’ e ‘Let It Be’) reeditados em estereofonia – os quatro primeiros pela primeira vez –, mais os dois volumes da compilação ‘Past Masters’, editados em meados dos anos 80 (e que trazem aqueles singles clássicos e lados b não incluídos nos álbuns de carreira, como ‘Paperback Writer’, ‘The Ballad of John and Yoko’, ‘I’m Down’, ‘Day Tripper’, ‘Don’t Let Me Down’, além de takes alternativos de faixas dos discos). E além disso, o selo britânico (é britânico ainda? Nesse mundo globalizado, de fusões constantes de empresas, nem sei mais!) promete a arte original e os libretos constantes das edições originais dos discos, acrescidos de novos textos e fotos inéditas.

Bom, mas aí o fã dirá: "é, pelo jeito o baú de raridades esgotou, então agora os caras resolveram reeditar os álbuns com uma frescurinha a mais". Certo, é isso mesmo. Depois das gravações pra BBC, dos três volumes da série ‘Anthology’, da versão ‘Naked’ (sem os arranjos sinfônicos do mago Phil Spector) de ‘Let It Be’, do mix-álbum ‘Beatles Love’, a princípio (nunca se sabe, claro) não tem mais nada a ser explorado do catálogo da maior banda pop de todos os tempos. Só que a "frescurinha", na verdade, se fazia necessária desde o início: assim como os discos dos Stones, de Bob Dylan, dos Byrds, a obra de Lennon, McCartney e cia. foi muito maltratada quando transposta para o disquinho digital. No caso dos artistas citados, é só comparar as primeiras edições com as mais recentes: o som sujo e vigoroso de álbuns como ‘Let It Bleed’ e ‘Beggar’s Banquet’ foi plenamente recuperado após o lançamento de todo o catálogo dos Stones em 2002 em Super Audio CD, por conta da comemoração de 40 anos de fundação da banda. Tem-se a impressão de ouvir discos diferentes, inclusive. Mesma coisa com Dylan e as chochas edições antigas de seus álbuns e as novas, também convertidas ao SACD. E no caso dos Byrds, toda a riqueza timbrística de monumentos da psicodelia californiana como ‘5th Dimmension’ e o sensacional ‘Younger Than Yesterday’ cruelmente se perdia na antiga, mas foi recuperada pela Sony nas reedições. É esse serviço que a EMI deveria ter feito antes de qualquer outro – mas espertamente guardou para o fim (é o fim das "novidades"? Será mesmo?), agora que o baú supostamente esgotou-se.

Imagina as inúmeras camadas sonoras do ‘Sgt. Pepper's’, o hipnótico ‘Revolver’, a espontaneidade e a crueza dos primeiros álbuns, a sofisticação do ‘Rubber Soul’, a maturidade do ‘Abbey Road’, tudo nos conformes, com os timbres e a densidade sonora devidamente recuperadas (a EMI garante ainda que "durante a remasterização, os estalos elétricos, golpes de ar nos microfones produzidos durante as músicas e outros problemas seriam resolvidos até onde fosse possível, sem afetar a integridade original das gravações")! Claro que ainda tem uns bibelozinhos a mais no pacote, nada pode ser tão "simples" assim (como se fosse pouco a primeira edição digital realmente honesta da magnífica obra dos Fab Four): por tempo limitado, cada CD trará ainda documentários sobre o álbum em questão, com direito a imagens de arquivo, fotos raras e até conversas dos Beatles nunca antes divulgadas. Um box reunirá todos os 13 discos originais, mais a coletânea ‘Past Masters’ (pelo jeito, resumida a um volume só) mais DVD com uma coleção de documentários, e outro trará os 10 primeiros álbuns em versão mono – também remasterizados, claro –, mais ‘Past Masters’ em mono também.

E aí: o leitor/ouvinte que é fã dos Beatles vai substituir toda a discografia antiga ou comprar só alguns títulos essenciais (putz, mas todos são!)? De uma vez só ou aos poucos? Vai preferir mono ou estéreo? Ah, tão prometendo o game ‘The Beatles: Rock Band’, vai encarar esse também? Pois eu só passo falar por mim, como escrevi lá no começo: os álbuns psicodélicos – ‘Sgt. Peppers’, ‘Revolver’, ‘Magical Mistery Tour’ – e seu som hipnótico são obrigatórios. A energia de ‘Help!’ e as gemas pop de ‘With the Beatles’, álbuns que ainda não possuo, vou encarar também. Já são cinco. Como do ‘Past Masters’ só tenho o segundo volume, o número sobe pra seis. ‘Beatles Remaster’ é uma picadinha que vai sair cara, portanto. Nada que assuste alguém que esteja acostumado há aproximadamente 25 anos entregar os últimos trocados, em troca de um baratinho (nem tanto assim) novo ao fornecedor – aliás fornecedores: Rogério (da Toca do Disco, boa praça mas incisivo), Professor Getúlio (da Boca do Disco, o mais ardiloso de todos, especialista em depreciar o produto alheio na hora das trocas e criar na mente do consumidor novas necessidades: não sei como algum especialista de marketing ainda não contratou-o pra fazer aquelas palestras que essa galerinha das vendas tanto adora), Peretto e Becker (da Jam, de Nóia, onde não apareço há alguns anos, fazem o tipo camarada, compreensivo, ganham o cara na confiança), Carlinhos Led (introduziu no seu método o cartão de fidelidade, embora venha cobrando os olhos da cara pelos importados), e mais recentemente a Livraria Cultura (maldito bônus de dez reais!) e Fnac (boas ofertas de vez em quando, mas ainda não dá pra meter com a Cultura). Porque a relação do fã de rock com o vendedor de discos é certamente igualzinha à de um drug addict com seu dealer. Sem tirar nem pôr, sem dúvida. E eu, momentaneamente impossibilitado de consumir, já tô providenciando minha recuperação – financeira, no caso – juntamente com a listinha de novos alimentos pro segundo semestre. É a vida de viciado, tensa, sempre na corda bamba, à beira de um colapso, mas com uma boa dose de diversão que compensa/justifica as privações e provaçõs. Ou não? Só sei que mal posso esperar a próxima dose. (A propósito: alguém se interessa pelo 'Younger Than Yesterday', dos Byrds? E pelo primeiro Hendrix, 'Are You Experienced'? Tem também dois dos melhores Stones, ' Beggar's Banquet' e o ao vivo 'Get Yer Ya Ya's Out' por um precinho camarada. Bem choradinho, também fazemos os três primeiros Velvet, que temos repetidos desde que foi adquirida a caixa 'Peel Slowly and See', uma década atrás, e nunca nos desfizemos dos antigos. Aproveita que por um precinho assim não vais encontrar essas pérolas por aí. Ah, não conheces? Mas como? Não sabes o que estás perdendo, olha ...)





Beatles remasterizados: tudo de novo

Frases e diálogos inesquecíveis (15)


"Jonathan é mais que um homem, é uma experiência. E vicia. Engarrafado, venderia horrores."

(Fred Amiel/Barry Sullivan, diretor e produtor executivo, sobre seu ambicioso – e pouco confiável – colega Jonathan Shields/Kirk Douglas, também produtor e diretor, em ASSIM ESTAVA ESCRITO/THE BAD AND AND THE BEAUTIFUL, de 1952. Retrato impiedoso de Vincent Minelli sobre Hollywood, foi lançado dois anos após o arrasador CREPÚSCULO DOS DEUSES/SUNSET BLVD., de Billy Wilder, o filme definitivo sobre o tema).

Assim foi escrito (2) – MOBY DICK (Hermann Melville)

"Trate-me por Ishmael. Há alguns anos – não importa quantos ao certo -, tendo pouco ou nenhum dinheiro no bolso, e nada em especial que me interessasse em terra firme, pensei em navegar um pouco e visitar o mundo das águas. É o meu jeito de afastar a melancolia e regular a circulação. Sempre que começo a ficar rabugento; sempre que há um novembro úmido e chuvoso em minha alma; sempre que, sem querer, me vejo parado diante de funerárias, ou acompanhando todos os funerais que encontro; e, em especial, quando minha tristeza é tão profunda que se faz necessário um princípio moral mais forte que me impeça de sair à rua e rigorosamente arrancar os chapéus de todas as pessoas – então percebo que é hora de ir o mais rápido possível para o mar. Esse é o meu substituto para a arma e as balas. Com garbo filosófico, Catão corre à sua espada; eu embarco discreto num navio. Não há nada de surpreendente nisso. Sem saber, quase todos os homens nutrem, cada um a seu modo, uma vez ou outra, praticamente o mesmo sentimento que tenho pelo oceano."






(Abertura do clássico romance de Herman Melville, publicado pela primeira vez em 1851. O super cachalote enfurecido, cuja caça e extermínio tornam-se a obsessão do soturno capitão Ahab, do barco Pequod, onde embarcam o narrador Ishmael e outras personagens memoráveis, como Stubb, Starbuck, Daggoo, Pip e o canibal Queequeg, foi a obra da vida de Melville – ‘Bartleby, o Escriturário’, ‘Billy Budd, o Marinheiro’ (publicado postumamente), ‘Taipi, Paraíso dos Canibais’ –, mas só foi ser reconhecido muito tempo depois, no início do século XX. Melville valeu-se de sua experiência como marujo da marinha mercante e de dois episódios reais. Um foi a tragédia do baleeiro Essex, em 1820, que representou pro imaginário americano do século XIX o que o naufrágio do Titanic significou para o Século XX: ao cruzar com um gigantesco cetáceo albino, há 3700 Km da costa oeste sul-americana, o navio teve vitimada quase toda a sua tripulação – só oito sobreviveram, ficando à deriva por aproximadamente três meses e alimentando-se da carne de seus colegas mortos, e um deles, Owen Chase, anos depois publicou seu relato do traumático evento (o historiador Nathaniel Philbrick reconstituiu em detalhes a história no premiado ‘No Coração do Mar’, lançado pela Cia. das Letras em 2000); o outro, quase vinte anos depois, serviu para delinear o perfil da baleia furiosa de Melville e sugerir-lhe o nome: Mocha Dick, que atacou dezenas de navios com surpreendente violência, apresentava, segundo as poucas testemunhas, um comportamento quase humano – premeditação, estratégia de ataque, ardilosidade –, ainda que tivesse um sem-número de arpões fincados no corpo. Foi finalmente capturada nas águas da ilha de Mocha, no Chile. O livro de cabeceira do brother Obama foi reeditado ano passado em edição de luxo da CosacNaify, com tradução de Irene Hirsch e Alexandre Barbosa de Souza, três ensaios – um deles de D.H. Lawrence –, bibliografia sobre MOBY DICK e seu autor, a relação de todas as edições desta e das demais obras de Melville e das teses sobre o escritor publicadas no Brasil e (ufa!) até Glossário Náutico e ilustrações de navios ao baleeiro do livro.)

Versinhos bacanas (16)

"I got my painting case babe here I go
to place my masterpiece above Michelangelo
I'd start with a picture of you but I don't like your ear
come closer to me now I'm full of ideas
Oh you look so tastefully
(lemme show you what Van Gogh learnt from me)
Creativity aflame, never felt this way before
That's for fighting that's for fun
that's my brush n' that's my sword
Guernica's gonna look like a joke
when I finish this
and every Bottifuckingcelli will be sold for less
but keep your Gauguin off my back
You don't want to lose Lautrec
mo mo mo mo mo mo mo
mo mo mo mo mo mo mo
Wow!
Edward munching bubblegum in hell
Lemme put my Rodin in your Claudel
You never saw the devil - I met him once
he said "Son, gimme gimme a new Renaissance"
Let's do it together babe, what d'you think
Get your modern hands off my Mona Lisa
mo mo mo mo mo mo mo
mo mo mo mo mo mo mo
Wow!"

(Louvre. DAMN LASER VAMPIRES are big fun (and kick all the asses). O melhor disco de rock de uma banda gaúcha – que, por sinal, não faz "rock gaúcho", thank God! – na década seria um sucesso de vendas e execução em um país com mercados fonográfico e radiofônico minimamente civilizados.)

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Paradão da Semana (13-16/04/2009)

Down and Out in New York City (James Brown)
Eddie You Should Better (Curtis Mayfield)
The Call (Gene Page)
Expansions (Lonnie Liston Smith & The Cosmic Echoes)
Coffy is the Color (Roy Ayers)
We Be’s Gettin’ Down (Graham Central Station)
Big Papa (Edwin Starr)
Nappy Head (War)
Be Thankful for What You Got (William De Vaughn)
Express (B.T. Express)
Cornbread (The Blackbyrds)
The Bottle (Gill Scott-Heron)
Sweetback’s Theme (Earth, Wind & Fire)
Trouble Man (Marvin Gaye)
Soulsville (Isaac Hayes)
Harlem Clavinette (J.J. Johnson)
Across 110th Street (Bobby Womack & Peace)
Theme from ‘Together Brothers’ (Love Unlimited Orchestra)
Car Wash (Rose Royce)
Theme of ‘Foxy Brown’/Overture of Foxy Brown (Willie Hutch)
Let’s Do It Again (Staple Singers)
Little Ghetto Boy (Donny Hathaway)
Are You Man Enough (Four Tops)
On and On (Gladys Knight & The Pips)
No Way Back (The Dells)
Cholly (Funk Get Ready to Roll!) (Funkadelic)
Shifting Gears (Johhny Hammond)
Chitterling con Carne (Pucho & His Latin Soul Brothers)
Inner City Blues (Reuben Wilson)
Melting Pot (Booker T & The MG’s)
Every Time He Comes Around (Minnie Riperton)
Hang Up Your Hang Ups (Herbie Hancock)
Everyday People (Sly & The Family Stone)
Broasted Or Fried (Willie Bobo & The Bo Gents)
Your Mama Wants Ya Back (Betty Davis)
Afro Strut (The Nite-Liters)
Matrix (Dizzy Gillespie)
Sport (Lightning Rod)
I’m Not So Sure (Milt Jackson)

quinta-feira, 16 de abril de 2009

Versinhos bacanas (15)

"Darkest of night
With the moon shinin' bright
There's a set goin' strong
Lotta things goin' on
The man of the hour
Has an air of great power
The dudes have envied him for so long
Oooh, Superfly
You're gonna make your fortune by and by
But if you lose, don't ask no questions why
The only game you know is 'Do or Die'
Ah-ha-ha
Hard to understand
What a hell of a man
This cat of the slum
Had a mind, wasn't dumb
But a weakness was shown
'Cause his hustle was wrong
His mind was his own
But the man lived alone
Oooh, Superfly
You're gonna make your fortune by and by
But if you lose, don't ask no questions why
The only game you know is "Do or Die"
Ah-ha-ha
The game he plays he plays for keeps
Hustlin' cards on ghetto streets
Tryin' ta get over
(That's what he tryin' to do, y'all)
Takin' all that he can take
Gamblin' with the odds of fate
Tryin' ta get over
Tryin' ta get over
Tryin' ta get over
Tryin' ta get over
Woo, Superfly
The aim of his role
Was to move a lot of blow
Ask him his dream
What does it mean
He wouldn't know
"Can't be like the rest"
Is the most he'll confess
But the time's running out
And there's no happiness
Oooh, Superfly
You're gonna make your fortune by and by
But if you lose, don't ask no questions why
The only game you know is "Do or Die"
Ah-ha-ha
Superfly
Superfly
Superfly
Superfly
"Tryin' ta get over...
[9x]"

(Superfly. A melhor trilha black de todos os tempos é também o grande disco da profícua carreira do grande CURTIS MAYFIELD)

Frases e diálogos inesquecíveis (14) - O Retorno de Sweetback

"É isso. Eu farei um filme sobre um negro real. Não um palhaço, como eles sempre fazem, mas um negro real, da rua, lutando contra a repressão do homem branco. Regra número um: não haverá meio-termo. Quero um filme que faça negros saírem do cinema ao invés de temerosos. Regra número dois: esse filme tem que entreter como o diabo. Se a platéia se entediar, é o fim. Regra número três: cinema é negócio. Esse filme tem que fazer dinheiro. O sistema não carregará uma mensagem de graça, especialmente se ela tiver relevância. Regra número quatro: a estrela desse filme será a comunidade, a comunidade inteira. Todas as caras que Norman Rockwell nunca pintou."

(Melvin Van Peebles, planejando seu SWEET SWEETBACK'S BAADASSSSS SONG, de 1971, clássico da então nascente onda blaxploitation, representado por seu filho Mario Van Peebles, em O RETORNO DE SWEETBACK. Mario, além de atuar, também dirige este filme-tributo, de 2003.)

Say It Loud, I'm Black and I'm Proud (2) - a música

Se os filmes blaxploitation contribuíram para a estética crua dos filmes policiais dos anos 70 e mudaram a perspectiva da coisa, tornando o antes oprimido afro-americano em herói (ou anti-herói contra o sistema, o que dá quase no mesmo) até ir perdendo força no final daquela década, a grande maioria das trilhas dos filmes desse período – exatamente a época dos grooves mais caprichados da música popular negra americana – eternizou-me. Há inclusive quem considere ‘Superfly’, por exemplo – talvez o melhor trabalho de Curtis Mayfield em toda a sua carreira – como a grande trilha sonora de todos os tempos, pelo menos entre aquelas que incluem canções pop. Abaixo, algumas sugestões de COMPANHIA MAGNÉTICA pra balançar o esqueleto, dar um bom dum amasso no sofá ou simplesmente curtir uma boa melodia.

As manjadas/obrigatórias/top de linha:

SHAFT(Isaac Hayes, 1971)


O carequinha de voz macia de cafajeste classudo fez um dos grandes shows a que Porto Alegre assistiu nos últimos 15 anos (Free Jazz Festival, Reitoria da UFRGS, 1996) e entre o final dos 60’s e a década seguinte, definiu caminhos para a black music, influenciando até o rap (foi um dos precursores do canto falado e sussurado). Um dos pontos altos de sua discografia é justamente a trilha de ‘Shaft’, sendo a faixa-título um dos sons mais característicos e marcantes do período – impossível alguém ter ouvido alguma vez na vida e não lembrar ao menos a introdução em wah-wah do tema –, mas o disco todo é excelente: ‘Do Your Thing’ e seus quase 20 minutos de puro e venenoso groove, as belas ‘Ellie’s Love Theme’ e ‘Soulsville’, a instrumental ‘Café Regio’s’. O álbum chegou a levar os Grammys do ano de melhor composição instrumental escrita para cinema ou TV e melhor arranjo instrumental, embora a Academia tenha complicado num primeiro momento, desconfiando que um artista popular não pudesse ter a sofisticação necessária pra compor partitura tão sofisticada (!). Foi necessária a intervenção do maestro Quincy Jones, bem mais entranhado na indústria, pra que Hayes pudesse levar os prêmios pra casa. A faixa-título de ‘Shaft’ chegou ao primeiro lugar da parada de singles pop, ao segundo lugar da parada black e ao sexto na tal ‘adult contemporary’. Já o álbum chegou ao topo das paradas pop, black e jazz. Hayes tem ainda em seu currículo as músicas de outro blaxploitation, ‘Truck Turner’, filme em que ainda atuou, fazendo o papel principal. Informação importante: ‘Shaft’ é a única destas trilhas disponível em CD no mercado brasileiro.

SUPERFLY’ (Curtis Mayfield, 1972)


Ex-líder do grupo vocal The Impressions, o "Dylan negro", cantor, compositor, guitarrista e produtor falecido em 99, após ter ficado tetraplégico em um acidente em estúdio (foi atingido por um spot de luz que desprendeu-se do teto), compôs provavelmente a mais popular trilha blaxploitation de todas, com pelo menos três hits massivos: ‘Pusherman’, ‘Freddie’s Dead’ (regravada posteriormente pelo Fishbone) e a faixa-titulo, além de outras músicas marcantes, como a de abertura, ‘Little Child Running Wild’, ‘Eddie You Should Better’ e ótimos temas instrumentais ‘Junkie Chase’, ‘Think’. Como todos os clássicos de Mayfield, o disco, chamado de " Sgt. Pepper’s negro" foi relançado no capricho (remasterizado, com textos bacanas e faixas-bônus) em 99 pela Rhino, logo após a morte do cara.

BLACULA’ (Gene Page, 1972)


Produtor e arranjador com uma longa e gloriosa lista de serviços prestados, Page trabalhou com Big Joe Turner, T-Bone Walker, Jackson Five (e Michael solo), Diana Ross, Barry White, Marvin Gaye, Elton John, Cat Stevens, Barbra Streisand, Gladys Night, James Taylor, Tempations, Jack Bruce, Joan Baez, Solomon Burke, Roberta Flack, Smokey Robinson, War, Dusty Springfield, ... e até Roberto Carlos. Grooves cabulosos (‘Run, Tina, Tun’), boas canções (‘Heavy Changes’, ‘Main Chance’), funkão hard (‘Good to The Last Drop’), ... tem de tudo num álbum que, como quase todos da época, supera o mero acompanhamento das imagens. Page ainda é auxiliado aqui por dois grupos vocais, o 21st Century (em ‘Heavy Changes’ e ‘Main Chance’) e o ótimo Hues Corporation (na arrepiante ‘There He is Again’ e em ‘What the World Knows’ e ‘I’m Gonna Catch You’).

TROUBLE MAN’ (Marvin Gaye, 1972)


Boa alcunha pra definir a conturbada personalidade do autor, a faixa-título deste filme é um dos grandes momentos da gloriosa década de 70 de um dos maiores, mais densos e revolucionários soulmen de todos os tempos, que inclui o monumental ‘What’s Goin’ On’, o álbum em parceria com Diana Ross (‘Diana & Marvin’, clássico do mela-cueca), os eróticos ‘Let’s Get It On’, ‘I Want You’ e o álbum-desagravo ‘Here, My Dear’. O disco ainda tem a malícia de ‘T Plays It Cool’ e a baladaça ‘Don’t Mess With Mr. T’.

THE MACK’ (Willie Hutch, 1974)


O super guitarrista da Motown tem incontáveis serviços prestados à melhor música pop negra do século passado, tendo produzido Jackson 5 e Smokey Robinson, entre outros, além de ter registrado outra trilha clássica, a de ‘Foxy Brown’. Mas ‘The Mack’, trazendo ‘Brothers Gonna Work It Out’, um verdadeiro hino black, e outras pérolas – a arrepiante ‘I Choose You’, ‘Slick’, ‘Mother’s Theme’, além, da faixa de abertura, ‘Vampin’, e, claro, o ‘Theme of the Mack’ – é seu melhor trabalho. Além de ser exímio músico, arranjador e compositor, o cara ainda cantava bem.


Além das trilhas completas, cabe ainda vasculhar o mercado atrás de algumas coletâneas, que trazem as melhores e mais características faixas do período, além de algumas pérolas mais ou menos escondidas (se bem que os iniciados conhecem este material de cor e salteado). Mas vá lá, COMPANHIA MAGNÉTICA te indica duas, uma nacional (se ainda estiver em catálogo) e outra importada:


BAADASSSSS CINEMA’ (2002)


Trilha do documentário de Isaac Julien presente na mostra da Usina do Gasômetro, foi lançada por aqui pela Sum Records, mas já faz um tempo (com sorte, ainda dá pra achar em algumas lojas, sobretudo virtuais). As faixas:

1 – People Get Up and Drive Your Funky Soul (James Brown, de ‘Slaughter’s Big Rip-Off’, de 1973) – com toda a nata da brodagem dando o melhor de sua abençoada música para os filmes dos irmãos, não ia ser o Papa que iria ficar de fora. Faixa bacana do filme policial de Gordon Douglas - cujo astro, coincidentemente é homônimo do pai do funk, Jim Brown -, com J.B. e sua turma da pesada (Fred Wesley, Charles Bobbitt e aquelas feras todas). Provando que era mesmo The Hardet Man in Show Business, o cara, no mesmo ano, ainda gravou a trilha de ‘Black Caesar’, o clássico ‘The Payback’ e ainda compôs material para os J.B.’s.

2 - Expansions (Lonnie Liston Smith & The Cosmic Echoes, 1975) – é a faixa-título do primeiro disco solo de Lonnie, que em 1974 deixou a banda de Miles Davis (e antes tocara com Betty Carter, Pharaoh Sanders e Gato Barbieri, entre outros), mandando de cara este clássico do funky-soul jazz. Os Cosmic Echoes duraram até meados dos 80’s e tiveram diversas mudanças na formação. ‘Expansions’ serviu de base para um clássico do rap, ‘Talkin' All That Jazz’, do Stetsasonic, lançado em 1988.

3 - Coffy is the Color (Roy Ayers, de ‘Coffy’, de 1973) – o vibrafonista californiano, sempre tido como uma das maiores influências do acid jazz, formou o Roy Ayers Ubiquity no início dos 70’s, uma banda de fusion inspirada nos experimentos de Miles Davis e Herbie Hancock, e que teve nas suas fileiras feras do quilate de Billy Cobham (que está esta semana em POA) e Omar Hakim. Nos anos 90, apareceria no disco de estréia do rapper Guru (‘Jazzmatazz’), tocando com ele e Donald Byrd em clubs de Nova Iorque.

4 – Pusherman (Curtis Mayfield, de ‘Superfly’, de 1972) – um dos três grandes hits da super trilha do prolífico e politizado Mayfield. Difícil dizer qual a melhor, se esta, a faixa-título ou ‘Freddie’s Dead’, ambas sampleadas ad nauseam pela comunidade hip-hop e o pessoal da electronica.

5 - We Be’s Gettin’ Down (Graham Central Station, 1973) – banda do ex-baixista de Sly & The Family Stone, Larry Graham, o cara que inventou o slaping (aquela "estilingada" nas cordas do baixo). Tá no álbum de estréia do grupo, de 1973.

6 – Truck Turner (Isaac Hayes, de ‘Truck Turner’, de 1974) – a música de ‘Shaft’ não foi a única colaboração de Hayes aos filmes blaxploitation: o Chef de South Park (era dele a voz da personagem) tem ainda em seu currículo as músicas deste outro filme, em que ainda atuou, fazendo o papel principal. Pena que o cara tenha falecido ano passado, dez dias antes de completar 66 anos de idade.

7 - Big Papa (Edwin Starr, de ‘Hell Up in Harlem’, 1974) – cantor de um vozeirão poderoso e alguns hits na carreira, mas nenhum que chegasse sequer perto da canção de protesto ‘War’, parceria com o produtor Norman Whitfield que inicialmente seria gravada pelos Temptations (mas aí o marketeiro-mor Berry Gordy, dono da Motown, achou o tema agressivo demais pro grupo e Starr gravou-a ele mesmo). A canção foi imediatamente considerada a mais incendiária gravação do selo até então. Já a trilha de 'Hell Up in Harlem’ foi o último álbum registrado pelo cantor pra Motown, em 1974. Starr faleceu em abril de 2003, aos 61 anos.

8 - Nappy Head (War, de ‘Ghetto Man’, 1971) – bem latina, como geralmente são os temas dos caras (‘Low Rider’, lembra?), essa tá no segundo disco do War, ‘All Day Music’, de 1971. O combo californiano, responsável por um dos crossovers mais quentes da música pop dos 70’s e apadrinhado pelo líder dos Animals, Eric Burdon, neste ano completa 40 anos de existência, e faz um tempo teve seus álbuns clássicos dos 70’s relançados remasterizados.

9 - Be Thankful for What You Got (William De Vaughn, 1974) – uma das grandes canções soul dos 70’s, consta do homônimo álbum de estréia do cantor, de 1974, e tornou-se um hit tão massivo que extrapolou a parada "étnica": depois de chegar ao topo da parada r&b americana, alcançou o quarto lugar na parada pop. Ao todo, o single vendeu 2 milhões de cópias. Da Vaughn, que é testemunha de Jeová, só voltaria a gravar em 1980 e levaria mais tempo ainda pra registrar seu terceiro álbum – este só saiu no ano pasado. A canção foi regravada por dois grupos cult nos anos 90: tá no clássico álbum de estréia do Massive Attack, ‘Blue Lines’, de 1992, e também no E.P. de covers - ‘Little Honda’ – do Yo La Tengo. Ambas as versões são bacanas – mas a original, só pra variar, é muito melhor.

10 - Express (B.T. Express, 1974) – uma das duas faixas do disco de estréia, ‘Do It (‘Till You’re Satisfied)’, deste grupo funk-disco do Brooklyn – a outra é a faixa-título – a alcançar o topo da para r&b e o top 10 da parada pop. Teve curtíssima duração, mas até encerrar as atividades, em 1981, lançaram praticamente um álbum por ano.

11 - Cornbread (The Blackbyrds, de ‘Cornbread, Earl and Me’, em 1975) – Donald Byrd, a fera do trumpete, fez parte dos Jazz Messengers de Art Blakey e acompanhou artistas do porte de Max Roach, Lionel Hampton, John Coltrane e Sonny Rollins. Formou a banda com seus alunos na Howard University em 1973, na esteira do estrondoso sucesso álbum ‘Black Byrd’, lançado um ano antes, com os Mizzell Brothers, e que já tinha orientação funk: descascado impiedosamente pela crítica, foi o álbum mais vendido do selo Blue Note até então. Outro grupo que durou pouco, apenas cinco anos, os Blackbyrds tiveram a chance de servir de banda de apoio para Roberta Flack e B.B. King, entre outros. Curiosidade: o filme marca a estréia do ator Larry Fishbone.

12 - The Bottle (Gill Scott-Heron, 1974) – Heron foi um dos precursores do canto falado (e portanto do rap) e gravou alguns dos discos mais radicais da soul music americana. O cara que disse que "a revolução não vai ser televisionada" e é um das tantas citações cool da já clássica ‘Losing My Edge’ do LCD Sound System, registrou esta pérola, de levada latina, no seu quarto álbum, ‘Winter America’, co-creditado ao tecladista Brian Jackson.

13 - Sweetback’s Theme (Earth, Wind & Fire, de ‘Sweet Sweetback Baadasssss Song’, 1971) – trilha do filme de Melvin Van Peebles - composta por ele, aliás -, lançada pela Stax Records, era vendida nos cinemas em que o filme era exibido, estratégia pioneira e esperta do diretor, que engajou-se de corpo e alma no projeto. A película acabou rapidinho atingindo a marca de U$ 14 milhões (uma fortuna pra época, ainda mais se considerarmos que o filme, além da temática black, não tinha estrelas e foi feito com pouquíssima, quase nenhuma, grana) e o disco permaneceu 23 semanas na parada de álbuns soul da Billboard. Nada mal para um grupo ainda desconhecido, muito longe do sucesso planetário de ‘Can’t Hide Love’, ‘Serpentine Fire’ ou a manjadaça ‘Let’s Groove’ (Maurice White era então namorado de Priscilla, a folclórica assistente de Van Peebles, a quem insistiu que intercedesse junto ao diretor por uma chance de mostrar o trabalho). Melhor ainda se considerarmos que Melvin, com limitação orçamentária cada vez mais dramática ao longo da produção, ainda pagou Maurice e cia. com um cheque sem fundo.


FUNK ON FILM’ (1998, importado)

1 – Theme from ‘Shaft’ (Isaac Hayes, de ‘Shaft’, de 1971) – a mais característica de todas os músicas dos filmes black americanos, geralmente a faixa com que Hayes fechava seus shows. O tema do tira fodão do filme de Gordon Parks pai carrega no orgulho da raça (“Who's the black private dick/That's a sex machine to all the chicks?”) e na lealdade entre os irmãos (“Who is the man that would risk his neck/For his brother man?”). Soberba, sofisticada, viciante, a primeira faixa de uma trilha quase perfeita.

2 - Across 110th Street (Bobby Womack & Peace, de ‘Across 110th Street’, 1972) – Impossível não arrepiar a espinha cada vez que soam os acordes iniciais desta pérola, que, além do filme policial de 1972, foi usada também em ‘Jackie Brown’, de Tarantino, e em ‘O Gângster’, de Ridley Scott. Refrão marcante, belíssimo arranjo de cordas e a voz rascante do cantor completam o serviço. A carreira do hoje veterano Bobby, de quem os Stones são grandes fãs, é deveras curiosa: talento precoce – formou com os irmãos os Womack Brothers, onde era o principal compositor, e ainda criança brilhou nos Soul Stirrers (depois renomeados Valentinos), contratados pela SAR Records do mitológico Sam Cooke -, sua carreira, contudo, não teve grandes hits, sendo justamente ‘Across 110th ...’ um dos poucos. O ótimo ‘The Poet’ teve boa repercussão, uma espécie de ressurreição pessoal e artística em 1981, e seu último álbum é de 2001. (Nota: a trilha do filme é dividida entre as canções de Womack e o material incidental, composto por J.J. Johnson, com larga vantagem para o soulman. Nota pessoal: perdi um show do cara em L.A. em 1993 e só Deus sabe o quanto me arrependo).

3 – Down and Out in New York City (James Brown, de ‘Black Caesar’, de 1973) – The Godfather of Ghetto encontra The Godfather of Soul: diz-se que o Super Bad teria entregue a trilha sem sequer ter visto o filme de Larry Cohen. Lenda ou não, o fato é que, secundado pelas feras que habitualmente o acompanhavam – o trombonista Fred Wesley, seu diretor musical e co-autor da maioria das faixas, o guitarrista Jimmy Nollen (e sua peculiar levada percussiva) –, J.B. manda bem não só na faixa de abertura de ‘O Chefão do Gueto’, mas em faixas como ‘The Boss’, largamente sampleada por artistas eletrônicos e de rap.

4 - Theme from ‘Together Brothers’ (Love Unlimited Orchestra, de ‘Together Brothers’, 1974) – a orquestra de Barry White, formada por mais de quarenta músicos inicialmente pra acompanhar suas protegidas Love Unlimited, acabou tornando-se o grupo de apoio dele próprio. A trilha do filme, composta por White, tem a participação de todos: dele, da orquetra e das meninas.

5 - Car Wash (Rose Royce, de ‘Car Wash’, 1976) – a faixa com mais cara de disco music de todos estes temas, até pelo período em que foi lançada, já no estouro da música hedonista e desencanada dos anos 70. O Rose Royce foi formado em L.A. em 1973, e logo em seguida contratado como grupo de apoio de Edwinn Starr, chamando a atenção também do maestro Norman Whitfield, figura-chave da soul music, arquiteto sonoro da Motown. ‘Rose Royce’ foi o álbum de estréia e o maior hit da carreira dos caras.

6 - Theme of ‘Foxy Brown’/Overture of Foxy Brown (Willie Hutch, de ‘Foxy Brown’, 1974) – embora não seja o trabalho mais bala de Hutch – que é a trilha de ‘The Mack’ –, o tema deste filme, veículo para a estrela Pam Grier, é marcante. Hutch faleceu em 2005.

7 - Let’s Do It Again (Staple Singers, de ‘Let’s Do It Again’, 1975) – um dos mais famosos e respeitados grupos vocais da América, unindo a tradição gospel ao funk e ao soul, começou gravando há exatos mais de cinquenta anos e ainda tá na ativa. A super sexy canção-tema do filme foi composta por Curtis Mayfield e gravada pro seu selo, Curtom, e tem grande interpretação da grande Mavis, a principal voz da família.

8 - Little Ghetto Boy (Donny Hathaway, de ‘Come Back Charleston Blue’, 1972) – o gueto era um tema frequente nas gravações de Hathaway, famoso por seus duetos com Roberta Flack. Morreu precocemente, aos 33 anos, supostamente por suicídio, deixando apenas cinco discos.

9 - Are You Man Enough (Four Tops, de ‘Shaft in Africa’, 1973) – o quartero de Detroit, que por muito tempo rivalizou com os Temptations como o melhor grupo vocal negro masculino da gloriosa história da Motown, entregou esta para a trilha de uma das sequências de ‘Shaft’ no mesmo ano de seu último grande hit, ‘Ain't No Woman (Like the One I've Got)’, sendo que a partir de então sua carreira já não apresentaria mais momentos luminosos como ‘Reach Out (I’ll Be There)’, ‘Baby I Need Your Loving’ ou ‘I Can’t Help Myself (Sugar Pie Honey Bunch)’. Lawrence Payton, um de seus membros originais, faleceu em 1997, mas os Tops ainda excursionam de vez em quando, com o substituto Theo Peoples.

10 - On and On (Gladys Knight & The Pips, de ‘Claudine’, 1974) – O disco, que ainda teve outros hits além de ‘On and On’ (como ‘The Makings of You’, gravada originalmente pelo seu autor, Curtis Mayfield, produtor do álbum, e ‘Make Yours a Happy Home’ – esta curiosamente só lançada em single dois anos depois do álbum), foi sucesso estrondoso de vendas no verão de 1974, atingindo o primeiro posto da parada r&b americana. A introdução serviu de base para o hit ‘City Song’, do Luscious Jackson, exatos 20 anos depois.

11 - No Way Back (The Dells, de ‘No Way Back’, 1975) – Grupo vocal de longuíssima carreira: formado em 1952 em Chicago, separou-se em 1986 pra depois ensaiar um comeback nos anos 90. Tiveram seu auge entre a segunda metade dos 60’s e a primeira dos 70’s. Originalmente um sexteto, estabilizaram a formação básica com cinco integrantes. Um acidente automobilístico quase abreviou a carreira do grupo em 1958: Marvin Júnior, o líder, teve sua laringe lacerada, e Mickey McGill, o segundo barítono, quase perdeu a perna, quando os caras dirigiam-se a um show na Filadélfia. Mas após turnês acompanhando Dinah Washigton e Ray Charles, acabaram estabelecendo-se com um dos grandes gupos vocais da América e emplacando vários hits, tanto nas paradas de r&b quanto nos charts pop. A faixa-título do filme de 1976 dirigido pelo astro Fred Williamson (de ‘O Chefão do Gueto’ e ‘M.A.S.H.’) conta com instrumentação mais hard, seguindo a onda da época. Ed Motta e o pessoal da Black Rio devem ter ouvido muito isso na vida.

12 - It’s Hard to Say Goodbye to Yesterday (G.C. Cameron, de ‘Cooley High’, 1975) – baladinha xarope levada num órgãozinho sem-vergonha, na real é a mais fraca destas faixas todas. Destoa do resto.

Say It Loud, I'm Black and I'm Proud (1) - os filmes

Ao final do ano, poderá se discutir se foi o melhor, o mais importante, mas provavelmente nenhuma outra programação roubará do ciclo ‘Black’, que iniciou terça na Sala P.F. Gastal, da Usina do Gasômetro, o título de evento cinematográfico mais divertido do ano. São 15 longas – mais o elogiado e inédito ‘Hunger’, que entra em cartaz em maio – e 8 curtas e média-metragens que têm como tema comum a questão do negro, pegando o gancho da histórica eleição do primeiro presidente de origem afro na história dos Estados Unidos. Há documentários e filmes de ficção, filmes políticos e de entretenimento, filmes norte-americanos, brasileiros, britânicos e franceses, mas é claro que o maior apelo da mostra recai sobre a onda blaxploitation dos anos 1970, os famosos filmes “de negros para negros” que impulsionaram as carreiras de futuros astros como Pam ‘Foxy Brown’ Grier e Richard ‘Shaft’ Roundtree e vinham acompanhados de algumas das melhores trilhas pop de todos os tempos. Pela primeira vez na história do cinema americano os negros deixavam os papéis de meros figurantes – ou, pior, a parte podre da história – pra serem os protagonistas, escancarando o orgulho da raça sem medo ou hesitação. O cinema blaxploitation teve influência direta em um sem-número de filmes e séries de TV de temática policial rodados nas ruas de Nova Iorque e L. A. após a onda, na primeira metade dos 70 – ‘Warriors’, ‘Serpico’, ‘Starsky and Hutch’, e até ‘Taxi Driver’, de Scorsese (cuja trilha, aliás, último trabalho do maestro Bernard Herrmann, famoso pela música de ‘Cidadão Kane’ e dos filmes de Hitchcock, tem uma discreta mas inconfundível levada funk) –, mas ao final daquela década já demonstrava sinais de desgaste. Nos anos 90, porém, o Soul Cinema e sua música sensacional passaram a ser resgatados por algumas das figuras-chave da cultura pop dos anos 90, tipo Quentin Tarantino e os DJ’s ingleses.

Bom, mas COMPANHIA MAGNÉTICA te dá algumas informações básicas sobre alguns dos highlights da festa funk da Usina, por ordem cronológica.

RIFIFI NO HARLEM (‘Cotton Comes to Harlem’; dir.: Ossie Davis; 1970)

Um dos mais divertidos títulos da mostra, este filme toma por base um texto do escritor noir Chester Himes (‘O Harlem é Escuro’, ‘Um Jeito Tranquilo de Matar’), mas o diretor retira toda a escuridão da obra e injeta muito humor na história de dois tiras, Grave Digger Jones (Godfrey Cambridge) e Coffin Ed Johnson (Raymond St. Jacques), que investigam um ex-detento que virou reverendo e promete aos fiéis irmãos uma redentora volta à África. Cheio de momentos cômicos e piadas impagáveis, o tíitulo remetem ao passado de escravidão em que os negros trabalhavam nas plantações de algodão (“cotton”) no sul da América, e a solução da trama é mais uma sacada interessante, justamente sobre esse passado, uma revanche bem-humorada sobre o sistema. Nunca antes uma câmera passeou tanto pelas ruas do Harlem – entra até no mítico Apollo Theater. Ossie Davis, o diretor, falecido em 2005, era também ator, e embora o nome talvez não seja tão conhecido por aqui, é um daqueles rostos que o sujeito vê e lembra na hora de diversos filmes (assim como sua mulher, Ruby Dee, tá em vários Spike Lee). Disponível nas locadoras em DVD.

SWEET SWEETBACK’S BAADASS SONG (dir.: Melvin Van Peebles; 1971)

O mais impactante entre todos os filmes blaxploitation, não só pelas intenções vanguardísticas (jump cuts em profusão, imagens psicodélicas, montagem não-linear) do diretor Peebles – que adotou o “Van” pra pensarem que ele era holandês e assim facilitar o financiamento -, mas também pelo radicalismo temático: após presenciar um brother engajado ser vítima de abuso policial, Sweetback entra em ação, espancando os dois tiras. Na fuga, em direção à fronteira com o México, passa por South Central (mais ou menos o equivalente em Los Angeles ao Bronx novaiorquino). Por conta das cenas de violência e sexo ousadas – até o filho de Melvin, Mario, então com 13 anos, entra na onda -, a película recebeu uma escandalosa classificação X da censura, o que não a impediu de lotar os cinemas: os Panteras Negras adotaram o filme. Também, pudera: Sweetback enfrenta o sistema de peito aberto, ao melhor estilo by all means necessary de Malcolm X. Disponível em DVD.

SHAFT (dir.: Gordon Parks; 1971)

À altura dos últimos andares de um arranha-céu novaiorquino, a câmera vai descendo às ruas, até focar John Shaft (Richard Roundtree), que tenta atravessar a rua e quase é atropelado por um motorista apressado. Manda o cara se foder – e aí soam os acordes da famosa introdução em wah-wah do tema de Isaac Hayes. Shaft é um ícone: tiradas espirituosas, auto-confiança ao extremo pra lidar com a malandragem, delicadeza e decisão pra tratar o mulherio. E o cara ainda habita um ap. cool, típico daqueles filmes ambientados na big apple, um loftzinho bacana que vai aparecer pela primeira vez no momento em que ela abate uma de suas vítimas – a moça botou o olho no cop durão instantes antes num bar, e logo depois da brincadeira vai ser dispensada de forma bem direta, sem a menor cerimônia. Mas a trama do filme é a seguinte: nosso herói é procurado por Bumpy, barão da contravenção no Harlem e seu velho desafeto, que teve a filha sequestrada pela máfia – os caracamanos querem lhe tomar a área. Shaft então convoca uns ativistas conhecidos, que encontram-se na clandestinidade, pra que o ajudem a libertar a menina. ‘Shaft’, o filme, é diversão garantidíssima.

SUPERFLY (dir.: Gordon Parks Jr.; 1972)


Dirigida pelo filho do diretor de ‘Shaft’, esta é provavelmente a primeira história de traficante em que o protagonista sofre com crise de consciência – e o cara ainda atende por Priest (“sacerdote”)! Ron O’Neal interpreta nosso dealer existencialista, que desfila por aí todo cheio de estilo num carrão da hora e rodeado de gostosas, mas quer largar o trampo. Sua ideia é convencer o parceiro Eddie (Carl Lee) a botar a mão nas economias da dupla e comprar um último carregamento de cocaína, forrar os bolsos e sumir do mapa. Claro que não vai ser tão fácil assim. A trilha de Curtis Mayfield geralmente é considerada não só a melhor do gênero mas uma das melhores de toda a história do cinema.

BLACULA (dir.: William Crain; 1972)


Na onda do Soul Cinema, não podia faltar um vampiro afro. O príncipe Blacula (William Marshall), transformado em sugador de sangue ("mais mortífero que o Drácula") na sua passagem pela Transilvânia no século XVIII, vai parar na ensolarada Califórnia 200 anos depois, pra encontrar Tina (Vonetta McGhee), aquela que acredita ser a reencarnação de sua amada. O filme rendeu diversas referências pop – é citado em vários episódios dos Simpsons, o vídeo da canção ‘Who Cares’, do Gnarls Barkley, fala sobre os percalços de um vampiro de nome Blacula – e apenas um ano depois de rodado, já teve sua sua sequência, ‘Scream, Blacula, Scream’ (pra ver como esse pessoal da blaxploitation trabalhava rápido). Também foi o primeiro a levar o Saturn Awards, que desde 1972 premia os melhores trabalhos do ano em ficção científica e terror. O também cantor Marshall morreu em 2003. Tinha o mal de Alzheimer. ‘Blacula’ passa no já tradicional Pro jeto “Raros” da Usina, nesta sexta-feira, 17, às 19h, em sessão única.

THE THING WITH TWO HEADS (dir.: Lee Frost; 1972)


Só pela premissa, deve ser ultra-divertido – e com certeza ainda mais bizarro que o Drácula negro. O veterano Ray Milland (‘Farrapo Humano’, de Billy Wilder, ‘Disque M Para Matar’, de Hitchcock) não devia estar no seu perfeito juízo quando aceitou fazer o papel de Maxwell Kirshner, um cientista ultra-racista que, após um experimento desastrado, passará a ter de conviver com a cabeça do apenado (negro, naturalmente) Jack Moss (Roosevelt ‘Rosey’ Rosey Grier). Isso mesmo: as duas cabeças passarão a ocupar o mesmo corpo e tentarão agredir-se o tempo todo. Este também passa no “Raros”, na sexta-feira seguinte, 24, às 21h, também em única sessão.

HEAVY TRAFFIC (dir.: Ralph Bakshi; 1973)


Único desenho animado do pacote, é o segundo trabalho da fera Bakshi (‘American Pop’, ‘Cool World’), de origem palestina mas criado no Brooklyn. Michael, um rapaz branco filho de pai italiano e mãe judia, arruma problemas com a família quando passa a sair com uma garota negra. Curiosidade: ‘Heavy Traffic’, originalmente, era pra ser uma adaptação do clássico romance barra-pesada ‘Última Saída Para o Brooklyn’, do junkie de carteirinha depois reabilitado Hubert Selby Jr.. Lançado um ano após do sucesso de ‘O Gato Fritz’. O diretor ainda tem outro filme de temática black no currículo, ‘Coonskin’, feito dois anos depois, em que a voz de um dos personagens é feita por ninguém menos que o rei do xaveco, Barry White.

FOXY BROWN (dir.: Jack Hill; 1974)


Foxy é irmã de um pusher que deve uma grana pra máfia. Ela coloca no circuito seu namorado, um agente federal, pra resolver a parada, mas os mobsters dão cabo dele, deixando-a sem outra alternativa senão partir, ela mesma, pra ação. Pam, 60 anos em maio próximo, também cantora, era a principal estrela feminina da blaxploitation (‘Coffy’, ‘Black Mama, White Mama’, ‘Scream, Blacula, Scream!’), e voltou aos holofotes pelas mãos de Tarantino em ‘Jackie Brown’, em 1997.


Além destes filmes, entre os mais significativos – e sui generis – do período, duas produções recentes prestam tributo ao Soul Cinema e são igualmente programa obrigatório pros interessados nos trabalhos dos desbravadores brothas and sistas setentistas.

BAADASSSSS CINEMA (dir.: Isaac Julien; 2002)


Este passa junto com outro longa (‘The Darker Side of Black’, de 1993) e um curta (‘The Attendant’, de 1992) no programa ‘Filmes de Isaac Julien’, do diretor londrino, cujo trabalho não se resume apenas ao cinema – ele também produz vídeo-instalações – e é inédito no Brasil. O cara entrevistou as estrelas Fred Williamson, Pam Grier e Richard Roundtree, os diretores de ‘Sweet Sweetback’s Baadassss Song’, Melvin Van Peebles, que fala sobre o pioneirismo de seu impactante filme de 1971, e ‘Black Caesar’, Larry Cohen, o historiador Armond White, o crítico bell hooks, além de Isaac Hayes – as trilhas sonoras são objeto de grande discussão no filme –, além, claro, do arroz-de-festa Tarantino. Produzido para a TV, estreou no prestigiado Independent Film Channel americano. A trilha sonora foi lançada no Brasil e é do caralho, 13 petardos funk de primeiríssima qualidade – tema do nosso próximo post, te liga!

BAADASSSSS! (‘O Retorno de Sweetback’; dir.: Mario Van Peebles, 2003)


Mario, ator de ‘The Cotton Club’, de Coppola, e diretor de ‘New Jack City’, não só escreveu e dirigiu, mas também fez o papel de seu pai, Melvin, nesta recriação das filmagens e lançamento do clássico ‘Sweet Sweetback’s Baadasssss Song’, baseado em seu livro, que também leva o nome do filme. Da dificuldade de arranjar financiamento aos constantes dribles nos colaboradores, até a angústia da estréia e a adoção pelos Panteras Negras, o filme, além da extrema felicidade com que retrata a difícil relação do artista independente com os tubarões dos estúdios, o clima free your mind and your ass will follow da contracultura e o tenso momento de transformações na sociedade americana, ainda examina as relações entre o artista, que vive 24 horas por dia com mente voltada pra sua obra, e o filho – que faria um pequeno porém controverso papel no filme. Sucesso em Sundance, em 2004, tem como produtor executivo Michael ‘Miami Vice’ Mann, participação de Ossie Davis como o pai de Melvin, John Singleton (diretor de ‘Boyz ‘N the Hood’), como um DJ, e Adam West, o eterno Batman da série de TV, numa ponta hilária, como um produtor, digamos, sui generis. Também disponível nas locadoras.

No próximo post, as trilhas.

terça-feira, 14 de abril de 2009

Assim foi Escrito (1) - Os Irmãos Karamázov (Dostoiévski)


Meu amigo, apesar de tudo, quero ser um gentleman e que assim me tratem -, começou o visitante num acesso de amor-próprio típico de parasita e já antecipadamente conciliador e cheio de bonomia. – Sou pobre, mas ... não digo que seja muito honesto, no entanto ... na sociedade costuma-se considerar como um axioma que sou o anjo caído ... Juro que não consigo imaginar como algum dia eu possa ter sido anjo. Se eu fui alguma vez, isso faz tanto tempo que nem é pecado esquecê-lo. Hoje só dou valor à reputação de homem decente e vivo como posso, procurando ser agradável. Amo sinceramente os homens – oh, tenho sido alvo de muita calúnia! Quando vez por outra me transfiro para a Terra, aqui minha vida transcorre como se fosse algo de verdade, e é isso o que mais me agrada. É que eu mesmo, assim como tu, sofro com o fantástico, e é por isso que eu gosto do vosso realismo terreno. Aqui entre vós, tudo é especificado, aqui há fórmula, aqui há geometria, ao passo que entre nós tudo são equações indefinidas! Aqui eu vago e sonho. Gosto de sonhar. Além do mais, na Terra fico supersticioso – não rias, por favor: e é justamente isso que me agrada; tornar-me supersticioso. (...) Meu sonho é encarnar – mas que seja definitivamente, irreversivelmente – em alguma mulher de comerciante, gorda, que pese umas sete arrobas, e acreditar em tudo o que ela acredita. Meu ideal é entrar na igreja e acender uma vela de todo o coração, juro! Então seria o fim de meus sofrimentos. Também tomei gosto pelos vossos tratamentos de saúde: na primavera, ouve uma epidemia de varíola, e eu fui a uma escola me vacinar – se soubesse como isso me deixou contente! Doei dez rublos para os nossos irmãos eslavos! ... Mas não estás me ouvindo. Sabes, hoje não pareces lá muito bem – o gentleman fez uma pequena pausa. – Sei que ontem consultaste aquele médico ... então, como estás se saúde? O que o médico te disse?

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- “Filosofando outra vez?” – Ivan rangeu os dentes com ódio.

- “Deus me livre! Mas vez por outra a gente não pode evitar umas queixinhas. Sou um homem caluniado. Tu mesmo estás me chamando de estúpido a três por dois. Logo se vê que és um jovem. Meu amigo, não se trata apenas de inteligência! Tenho por natureza um coração bondoso e alegre, ‘porque também escrevi diversos vaudevilles’. Parece que me tomas terminantemente por um Khliestakóv grisalho, e, não obstante, meu destino é bem mais sério. Por uma missão primordial, que nunca consegui entender, fui destinado a ‘negar’. Não, sai por aí negando, sem negação não haveria crítica, e que revista poderia passar sem um ‘departamento de crítica’? Sem crítica, só haveria Hosana. Mas, para viver, só o Hosana não basta, é preciso que esse Hosana passe pelo crisol da dúvida, e assim sucessivamente. Aliás, não me intrometo em nada disso, não fui eu que o criei, logo, não respondo por isso. Mas ainda assim pegaram alguém para bode expiatório, obrigaram-no a escrever no departamento de crítica e a vida começou. Nós compreendemos essa comédia: eu, por exemplo, exijo simples e francamente a minha destruição. Não, vive, dizem, porque sem ti não haverá nada. Se tudo no mundo fosse sensato, nada aconteceria. Sem ti não haveria quaisquer acontecimentos, e é preciso que haja acontecimentos. E então trabalho a contragosto para que haja acontecimentos e crio o insensato cumprindo ordem. Os homens, a despeito de toda a sua indiscutível inteligência, tomam toda essa comédia por alguma coisa séria. Nisto reside sua tragédia. E então sofre, é claro, mas ... em compensação, vivem apesar de tudo, vivem na realidade, não na fantasia; porque o sofrimento é que é vida. Sem sofrimento, que prazer poderia haver em viver? – tudo se transformaria num infinito ‘Te Deum’: é preciso uma coisa sagrada, porém meio chata. Bem, e eu? Sofro, e no entanto não vivo. Sou o x de uma equação indefinida. Sou uma espécie de espectro da vida, que perdeu todos os fins e princípios e acabou esquecendo até como se chama. Estás rindo ... não, não estás rindo, estás novamente zangado. Vives eternamente zangado, gostarias que houvesse apenas inteligência, mas torno a repetir que daria toda essa vida sob as estrelas, todos os títulos e honrarias unicamente para encarnar na alma de uma comerciante de sete arrobas e acender uma vela para Deus
”.

(Trecho de ‘O Diabo. O Pesadelo de Ivan Fiodorovitch’, em OS IRMÃOS KARAMÁZOV, último romance de Fiódor Dostoiévski (1821-1881) e lançado no final do ano passado no Brasil, pela Editora 34, pela primeira vez no capricho, com tradução direta do russo e com base nas edições recentes, que restabeleceram o texto original a partir dos manuscritos do autor e da comparação entre as diferentes edições – a obra várias vezes foi impiedosamente mutilada em seu país, vítima da censura czarista e do período stalinista. O mais atormentado e racionalista dos três irmãos, delirante, passa a sonhar com o coisa ruim às vésperas do julgamento de seu irmão mais velho, Dimitri, acusado de ter matado o próprio pai. Ivan, dos três, é o mais intelectualizado, e segundo o tradutor Paulo Bezerra, entre todas as personagens do autor russo, é a que mais se aproxima de um alter ego de seu criador. “A construção da imagem de Ivan exigiu de Dostoievski uma excepcional capacidade de realizar numa única personagem a síntese de toda a sua erudição nos campos da literatura, da história, da filosofia e da religião, e de caracteres humanos que já se encontravam em personagens de suas obras anteriores, como Raskólnikov, de ‘Crime e Castigo’, Hippolit, de ‘O Idiota’, e Kirillov e Stavróguin, de ‘Os Demônios’, criaturas que pensam em profundidade e com seu pensamento questionam a ordem social e cósmica”. O grande momento do livro é a parábola do Grande Inquisidor, em que o niilista Ivan zomba impiedosamente da igreja em uma suposta vinda de Deus à Terra. Sabe-se que Dostoievski foi um homem religioso, ou, nas palavras de Paulo Bezerra, “conflituosamente religioso”. A edição da 34, publicada em dois volumes, ainda é enriquecida pelas excelentes ilustrações de Ulysses Bôscolo, como a imagem do demo acima.)