Essas considerações alcançavam proporções monstruosas na sua vida pessoal, nas relações com seus amigos. Era capaz de passar a manhã inteira sentada, procurando recordar detalhes de uma cena, de umabreve conversa, para testar na sua cabeça todas as interpretações possíveis de cada frase e cada gesto e cada expressão facial ou inflexão vocal a elas articuladas. Dedicava grande parte de sua vida à classificação dos presságios. Por isso não causava espécie que sua capacidade de praticar os atos da vida cotidianase reduzisse ao mínimo, quando, devido à insegurança, via-se privada de exercer aquela função. Era como se fosse vítima de estranha paralisia. Deixava de totalmente de ter reações; toda a sua personalidade murchava; parecia um fantasma. Naqueles dias sinistros, os amigos que a conheciam bem diziam: ‘Ah, Kit está num daqueles seus dias’. Se, então, ficava amortecida e parecendo quase racional, era apenas porque estava imitando mecanicamente o que considerava ser um comportamento racional. Uma das razões de ter uma aversão tão forte a ouvir as pessoas contarem sonhos, era porque isto chamava de imediato sua atenção sobre a luta que se travava dentro dela – a guerra entre a razão e o atavismo. Nas discussões intelectuais era sempre a defensora do método científico; ao mesmo tempo, era inevitável que encarasse o sonho como um augúrio."
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"Ao abrir os olhos ela sabia exatamente onde se encontrava. A lua estava baiza no céu. Enrolou o casaco em volta das pernas, tremendo ligeiramente, sem pensar em nada. Havia uma parte de sua mente que estava dolorida, que precisava descansar. Como era bom estar apenas deitada ali, existir sem fazer perguntas. Sabia com certeza que, se quisesse, poderia lembrar tudo que acontecera. Precisava apenas de um pequeno esforço. Porém sentia-se bem do jeito que estava, com aquela cortina opaca no meio. Não seria ela quem a levantaria para contemplar de novo o abismo de ontem, para sofrer e suportar seu remorso. Naquele momento o que acontecera antes estava indistinto, irreconhecível. Afastou o pensamento daquilo de maneira resoluta, recusando-se a examiná-lo, esforçando-se ao máximo para erguer uma barreira segura entre eles. Semelhante ao inseto que vai fazendo seu casulo cada vez mais espesso e resistente, seu pensamento prosseguia fortalecendo aquela tênue divisão, o lugar perigoso de seu ser."
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"A paisagem do deserto mostra sempre o seu melhor perfil à meia-luz do amanhecer ou do crepúsculo. A sensação de distância deixa de existir e um cume ali perto, na realidade, pode vir a ser uma serra distante; cada pequeno detalhe pode ter a mesma importância de uma variante da paisagem repetitiva. A chegada do dia promete mudança; só quando ele clareia completamente é que o observador suspeita do retorno do mesmo dia – o mesmo dia que vive há longo tempo, sempre repetido, com seu brilho ofuscante intocado pelo tempo."
(‘O Céu Que Nos Protege’. Publicado originalmente em 1949 – a edição brasileira, da Rocco, é de 1990 –, ‘The Sheltering Sky’ é o mais conhecido livro de PAUL BOWLES, um magistral romance onde muito pouca acontece: como os trechos aí acima bem demonstram, o que interessa ao escritor norte-americano é o movimento interno das personagens, Port, alterego do próprio Bowles, e Kit, inspirada em sua esposa, a também escritora Jane Bowles. Eles partem de Nova Iorque em direção ao deserto africano – o lugar jamais é mencionado, mas é certo que trata-se de Tânger, no Marrocos, onde Bowles viveu até seus últimos dias –, na companhia de seu amigo Tunner, e lá o vácuo existencial vai manifestar-se de forma profunda. Na vida real, Jane teve mais problemas que Paul: de saúde frágil, contraiu tuberculose na adolesência e desenvolveu alcoolismo muito cedo, o que lhe causou um derrame com apenas 40 anos de idade. Até o final de sua vida – morreu em Málaga, na Espanha, onde se tratava, em 1973, aos 56 anos –, faria um interminável vai-e-volta de clínicas e hospitais. Escreveu um romance muito elogiado, ‘Duas Damas Bem Comportadas’, publicado em 1943, editado no Brasil pela L&PM – e infelizmente já esgotado –, com tradução de Lya Luft e apresentação de Truman Capote. O prefácio de Capote, cujo título já diz muito, ‘A propósito de Uma Dama Nômade’, está disponível em uma compilação de textos dele, ‘Os Cães ladram – pessoas públicas e lugares comuns’, também lançada pela L&PM. Jane, mesmo casada com Paul, desde seus tempos de boemia no Village novaiorquino, já havia manifestado sua bissexualidade, e em Tânger teve um conturbado romance com uma marroquina, Cherifa. O igualmente angustiado Paul, também compositor musical – colaborou com espetáculos teatrais de Orson Welles e Tennesse Williams, entre outros, além de ter-se apresentado no Carneggie Hall executando ao piano ‘Os Pássaros de Fogo’, se Stravinsky, causando forte impressão, com apenas 15 anos de idade –, largou a universidade aos 19 anos e comprou uma passagem para Paris sem avisar aos pais, com o intuito de nunca mais voltar – mais tarde, diria não tratar-se de uma fuga: "ao contrário, apenas buscava algo que não sabia ainda o que era". Acabou retornando, mas já estava com seu futuro traçado: em Paris, frequentou o círculo de amizades de Gertrude Stein, que o aconselhou a visitar Tânger, viagem que mudaria pra sempre sua vida. Estava feita a transição de músico a escritor. Além de contos e romances, trabalhou em diversas traduções para o inglês de escritores marroquinos e também de mestres de outras procedências, como Borges e Sartre. O casal Paul e Jane Bowles é retratado no filme ‘Mistérios e Paixões’, ridículo título nacional para ‘Naked Lunch’, versão de David Cronenberg para o clássico beat de William Burroughs – o velho Bill Lee, além de vários outros escritores, visitaram o casal na África: Paul, no filme, é Tom Frost (Ian Holm), e Jane é Joan (Judy Davis). Bowles também comparece – aí em carne, osso e voz – na versão cinematográfica de ‘O Céu Que Nos Protege’, lançada em 1990, fazendo um "cameo" logo no começo e também a narração. O filme do diretor italiano, apesar de bem-intencionado e de contar com os talentos de John Malkovich como Port, e Debra Winger como Kit, além da música de Ryiuchi Sakamoto e a fotografia de Vitorio Sttoraro, fica muuuuuiiiiito aquém do livro: os atores jamais acertam o tom (o incensado Malkovich, particularmente, está francamante canastrão de tão over), o drama existencial ganha ares de melodrama, e as imagens de cartão postal jamais equiparam-se às imagens criadas pelo texto talentoso de Bowles para descrever o limbo espiritual da dupla – em certos momentos, é francamente irritante a inabilidade do (ótimo) cineasta em criar um clima minimamante acreditável, além de, em outros, não fazer nada além de uma tacanha transcrição literal do texto. Bowles ainda teve lançada por aqui, pela mesma Rocco, a coletânea de contos ‘Chá nas Montanhas’, com introdução de Gore Vidal – que nos anos 50 disse que "Carson McCullers, Paul Bowles e Tennessee Williams são, pelo menos neste momento, os três escritores mais interessantes dos Estados Unidos" – e textos que vão de 1945 a 1979. Paul Bowles faleceu em Tânger em novembro de 1999, aos 88 anos.)
