quinta-feira, 19 de novembro de 2009

COMPANHIA MAGNÉTICA NO RÁDIO (10)

Então, tá, rapazeada, estamos chegando ao 10º programa! Fundindo, difundindo e principalmente confundindo nas ondas do rádio, da província para o mundo. Aí vai o playlist deste sábado, dia 21/11, às 21h na FM CULTURA (107.7 no dial ou www.fmcultura.com.br na rede). Enjoy!


1º bloco:
BLACK REBEL MOTORCYCLE CLUB – Spread Your Love


Banda americana de San Francisco, muito comparada ao Jesus & Mary Chain, pelo som barulhento e vocais sussurrados, a grande influência dos caras é mesmo o som shoegaze britânico da virada dos 80 para os 90, fazendo referência a Stone Roses e My Bloody Valentine, entre outros. O disco de estreia, ‘B.R.M.C.’, causou sensação quando foi lançado, em 2000, e o segundo, ‘Take Them On, On Your Own’ (2003) permanece como o único a sair no Brasil. Acabam de lançar um disco ao vivo lá fora.

BAND OF SUSANS – Mood Swing

Grupo novaiorquino, já extinto, pelo qual passaram Page Hamilton (Helmet) e Thalia Zedek (Come). O peculiar nome devia-se ao fato de ter em sua formação inicial duas Susans – a cantora, compositora e baixista Susan Stenger, líder da banda ao lado do guitarrista Robert Poss, e a guitarrista Susan Tallman. O negócio do grupo era criar ambiências a partir do som noisy das duas guitarras – seguindo uma tradição do som de Nova Iorque que vem desde o Velvet Underground, passando pelo Television e chegando ao Sonic Youth, e também flertando com o som shoegaze da época. Deixaram discos excelentes, como ‘Veil’, de 1993, e encerraram as atividades em 1996.

GIRLS AGAINST BOYS – Disco Six Six Six

Também americanos, estes de Washington D.C., tinham uma curiosa formação com dois baixos, e foram, num dado momento, a banda preferida dos críticos americanos – a revista Spin chegou a dar uma raríssima nota 10 a seu quarto álbum, ‘House of GVSB’ (1996). Do hype indie, foram contratados por uma major, mas, contrariando as expectativas sempre exageradas das grandes gravadoras, não venderam o esperado e acabaram voltando à cena independente. Não gravaram mais disco algum desde ‘You Can’t Fight What You Can’t See’, de 2002, mas não consta que o grupo tenha acabado.

2º bloco:
PANDA BEAR – Comfy in Nautica


É daquelas bandas dificílimas de classificar: tem um quê de som industrail, harmonias vocais que lembram o melhor dos Beach Boys psicodélicos, experimentalismos que remetem a Laurie Anderson, ao Einstürzende Neubauten, ao Cabaret Voltaire e ao Suicide. O dono da bola é Noah Lennox, americano de Baltimore, que tirou o nome de guerra de um desenho que fez de um urso panda na parede do quarto onde fez suas primeira gravações caseiras. Lennox também é integrante do Animal Collective e outros projetos, e o Panda Bear tem dois álbuns: ‘Young Prayer’, de 2004 – gravado sob o impacto da morte do pai de Lennox –, e ‘Person Pitch’, de 2007.

BIBIO – Lover’s Carvings

Projeto do produtor e multi-instrumentista inglês Stephen Wilkinson, influenciado tanto pela electronica cabeça dos anos 90 (Aphex Twin, Autechre e Boards of Canada) quanto pela música folk britânica de meados do século passado. Bibio hoje é um dos musts da música eletrônica, tendo lançado só neste ano de 2009 três discos, todos muito elogiados: ‘Vignetting the Compost’ no começo do ano, ‘Ambivalence Avenue’ – estreia pelo prestigiado selo Warp –, em junho, e agora sai a versão remix desse, ‘The Apple and the Tooth’.

AIR – Sing Sang Sung

O duo francês Jean-Benoît Dunckel e Nicolas Godin tá de volta com ‘Love 2’, seu quinto álbum de carreira – descontadas trilhas sonoras e coletâneas – e o primeiro disco desde ‘Pocket Symphony’ (2007). No novo álbum, os caras exploram o mesmo conceito que permeou os últimos shows da turnê passada: apenas o baterista Joey Waronker acompanha os caras e suas colagens, que vão da eletrônica vintage a toques jazzísticos, do pop oitentista aos experimentalismos que remetem ao krautrock e a Brian Eno. ‘Love 2’ também traz uma novidade na carreira da dupla: é a primeira vez que um álbum do Air é produzido por eles mesmos.

3º bloco:
KEVIN AYERS, JOHN CALE, BRIAN ENO & NICO
(‘June 1, 1974’, 1974)
Histórico encontro de quatro talentosos esquisitões do art rock do final dos anos 1960/início dos 1970 – ou seis, se considerarmos que Robert Waytt e Mike Oldfield também tocam na empreitada. Na verdade, o show, marcado para o Rainbow Theatre londrino, era pra ser de Ayers, que decidiu convidar amigos e músicos a quem admirava pra se juntar a ele. A primeira contatada foi Nico, que trouxe consigo John Cale, que, por sua vez, acionou Eno. Robert Wyatt, que tocara com Ayers no Soft Machine, e Mike Odfield, que havia participado, com apenas 17 anos, da The Whole World, banda de Ayers em 1970, também foram convocados – e ainda havia os Soporifics, banda de apoio de Ayers à época, e as cantoras Liza Strike e Irene e Doreen Chanter. O concerto, realizado então no dia 1º de junho de 1974, teve todos os 3 mil ingressos vendidos rapidamente, e foi precedido de apenas uma semana de ensaios.

Das nove faixas, cinco são cantadas por Ayers, duas por Eno, uma por Nico e outra por Cale: no lado A do vinil original, Eno começa com as suas ‘Driving Me Backwards’ e ‘Baby’s On Fire’, Cale canta uma paranóica versão de ‘Heatrbreak Hotel’, hit de Elvis, e Nico fecha com a aterradora ‘The End’, dos Doors, que acabara de registrar em seu álbum homônimo. O lado B é todo de Ayers. Ficaram de fora as canções ‘Ive Got a Hard-On For You, Baby’, de Ayers, ‘Buffalo Ballet’ e ‘Gun’, de Cale, além de Nico cantando a sua ‘Janitor of Lunacy’ e ‘Deutschland Über Alles’. Ayers lançou dois discos solo no mesmo ano: ‘The Confessions of Dr. Dream and Other Stories’, antes deste álbum ao vivo, e ‘Lady June’s Linguistic Leprosy’, depois. Eno e Cale estavam no grande momento de suas carreiras: o primeiro vinha do clássico debut, ‘Here Come the Warm Jets’, e ainda lançaria outro disco antológico no mesmo ano, ‘Taking Tiger Mountain By Strategy’; Cale também vinha de um clássico, o belo ‘Paris 1919’, lançado em 1973, e ainda 1974 registraria outro, o nervoso ‘Fear’. Nico, após ‘The End’, se afundaria ainda mais nas drogas e só lançaria novo álbum em 1981 – o irregular ‘Drama of Exile’.

‘June 1, 1974’ foi lançado rapidinho, ainda no mês do show, no dia. Como curiosidade, a foto da capa, que mostra o quarteto especialmente trajado para entrar em cena, foi de fato clicada por Mick Rock no foyer do teatro instantes antes dos caras subirem ao palco. Não precisa prestar muita atenção pra reparar o sorriso algo irônico/algo constrangido que exibem Ayers e Cale. Explica-se: na noite anterior ao concerto, Ayers passara a noite com a mulher de Cale – e este ficou sabendo.

Baby’s On Fire
Heartbreak Hotel
The End
May I?




O quarteto fantástico: 'art rock' de verdade, como antídoto às chatices progressivóides dos anos 1970

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

COMPANHIA MAGNÉTICA NO RÁDIO (9)

O programa deste sábado, 14/11, à 9 da noite na FM CULTURA (107.7 ou www.fmcultura.com.br) é este:

1º bloco:

GOSSIP – Heavy Cross

Tema do nosso primeiro programa, quando saía por aqui o disco ao vivo gravado em Liverpool em 2007, o trio americano liderado pela figuraça Beth Ditto volta agora com seu álbum mas recente, ‘Music For Men’, lançado em junho. É o primeiro registro de material inédito por uma grande gravadora (a major Columbia Records, no caso), e traz a banda com um som mais acessível, o que não significa diluição. A características que fizeram do grupo um dos mais queridos do underground desta década estão todos lá: o mix punk-soul-disco continua, Beth está cantando como nunca e os versos seguem afiados como sempre. A novidade é que há o acréscimo da eletrônica pontuando algumas canções.

DEERHOOF – Fresh Born
Grupo californiano de San Francisco, tá na ativa desde a década passada, tendo iniciado como mum projeto do guitarrista Rob Fisk e do baterista e tecladista Greg Saunier em 1994, e as primeiras gravações vão na esteira da no wave novaiorquina do final dos anos 1970. A japonesinha Satomi Matsuzaki entrou em 1996, assumindo os vocais e o baixo. O som é experimental – em certas canções, tem até uma pegvada industrial, que lembra o som do Helmet ou do Prong, levada funk e melodias pop. ‘Offend Maggie’ é o disco mais recente, do ano passado.

CRYSTAL CASTLES – Crimewave

Projeto de um cidadão chamado Ethan Kath, que tirou o nome dos desenhos da She-Rah e He-Man, e da cantora Alice Glass. Fazem pop eletrônico experimental, com fartas referências oitentistas – a inspiração, que fica logo clara na primeira audição, são as trilhas sonoras de videogames da época (não por acaso, a Atari também tinha um game com esse nome). Uma curiosidade sobre uma das principais canções da dupla diz muito a respeito do ‘modus operandi’ do grupo: a canção ‘Alice Practicing’ era pra ser o que o título sugere, uma demo gravada despretensiosamente em um ensaio, sem pretensão maior de virar canção, só que foi parar no My Space e rendeu um convite de várias gravadoras, acabando por ser lançada em single em 2006. O disco de estreia, homônimo, é do ano passado.


2º bloco:
NEUTRAL MILK HOTEL – In the Aeroplane Over the Sea

Uma das principais bandas a surgirem do selo/comunidade Elephant 6 – junto aos também aclamados Olivia Tremor Control e Apples in Stereo -, que faziam um som lo-fi psicodélico cheio de referências aos anos 1960. Basicamente um projeto do vocalista e compositor Jeff Mangum, deixou dois ótimos álbuns, ‘On Avery Island’ (1996) e ‘In the Aeroplane Over the Sea’ (1998) – este último, considerado um clássico do som indie americanos da década de 1990. Ambos estão sendo relançados lá fora, em vinil.

MERCURY REV – Holes

Outro clássico noventista é o quarto álbum do sexteto de Buffalo, Nova Iorque, praticamente uma banda irmã dos Flaming Lips, com quem os líderes Jonathan Donahue e David Friedman trabalharam. ‘Deserter’s Songs’ (1998) foi gravado já após a saída do vocalista original, David Baker, que, atritado com o resto da banda, viajava nas turnês num avião à parte do resto do grupo – as relações conflituosas fazem parte do histórico da banda e do folclore do rock americano. Trata-se de um álbum folk, psicodélico, com participação de Garth Hudson e Levon Helm (da The Band), com uma atmosfera dreamy, e de sonoridade bem mais calma do que os anteriores em que o grupo investia no noise – chegaram a ser expulsos do palco, em um show do Festival do Lollapallooza em Denver, no Colorado, por estourarem em muito o nível de decidéis permitido pelas autoridades locais.

DAMON & NAOMI c/ GHOST – The Mirror Phase

Um dos verdadeiros tesouros escondidos desta década, ‘Damon & Naomi with Ghost’, lançado em 2000, marca o encontro do duo folky tristonho americano e da banda folky psicodélica japonesa. Damon Krukoski e Naomi Yang era, respectivamente, baterista e baixista do aclamado trio maericano Galaxy 500, e com o fim da banda, no início dos 90’s, planejavam retirar-se da música, quando receberam uma proposta de seu antigo produtor pra que lançassem novo material para o selo Shimmy Disc. Damon assumiu então vocais, guitarra e percussão, e Naomi, baixo e vocais. O debut da dupla, ‘More Sad Hits’ (o título já diz tudo), saiu em 1991, e é um clássico da melancolia sonora da década passada. Já o Ghost, liderado pelo guitarrista Masaki Batoh, retira suas influências da psicodelia da costa oeste americana dos anos 1960 (Byrds, Jefferson Airplane, Love) e do experimentalismo do Velvet Underground e do krautrock do Can. O grupo, de formação variável, tem 9 discos lançados desde 2001, um deles ao vivo, sem falar nos igualmente respeitados discos-solo de Batoh.

3º bloco:
Especial - P.I.L. (‘Metal Box’, 1979)

Completando 30 anos de lançamento neste ano de 2009, o segundo disco da banda de John Lydon pós-Sex Pistols segue como seu trabalho mais significativo e nos últimos anos vem de novo voltando à pauta, pois várias bandas entre as mais quentes do momento – LCD Sound System, TV On The Radio, e até o Radiohead –, têm a famosa caixinha de metal do Publi Image Limited como uma de suas principais referências.

O P.I.L. foi formado em 1978 por Lydon e o guitarrista Keith Levene (ex-Clash) em 1978, e na sua formação inicial contava ainda com o baixista Jah Wobble – que ficaria conhecido depois por seus discos experimentais em que flertava com a world music – e o baterista Jim Walker. O primeiro single, ‘Public Image’, chegou ao Top 10 britânico, ainda com uma música que lembrava o som de garagem dos Pistols, mas o álbum de estreia, ‘First Issue’, que satirizava as capas de revistas de moda, já mostraria uma banda com farto apelo experimental, com influências diversas que iam do reggae e do dub (Lydon sempre foi fã dos sons jamaicanos) e do krautrock alemão (era admirador, em particular, do Can). Mas o disco seguinte, embalado numa caixinha que lembra a de um filme, é que faria toda a diferença.

‘Metal Box’ (ou ‘Second Edition’, seu título original), com o P.I.L. já reduzido ao trio Lydon, Levene e Wobble – com o auxílio do baterista Richard Dudanski, embora Walker ainda tenha registrado sua participação em algumas faixas –, é daqueles álbuns difíceis de classificar: não se parece com quase nada que tenha vindo antes dele. A guitarra de Levene por vezes soa percussiva, os versos de Lydon, que exploram desde a morte da mãe a assassinato, além de seus ataques ao stablishment, por vezes mal e mal se parecem com os de uma canção – no sentido tradicional do termo, ao menos. A estranha atmosfera criada pelos músicos, uma hora tem uma certa levada funk, em outras a música parece dura, gélida, desumanizante – um resenhista cunhou a expressão ‘alien dance music’ e faz sentido.

O P.I.L. gravaria mais outros 8 discos (dois ao vivo), sendo o mais conhecido deles ‘Album’, de 1986 – o primeiro a ser lançado no Brasil, que trouxe a banda ao país para shows no Rio e em São Paulo’ –, até encerrar as atividades em 1993. Lydon lançou um disco solo sem muita repercussão e desde 1996 excursiona esporadicamente com os redivivos Sex Pistols.

Memories
Poptones
Careering



Johnny, o eterno iconoclasta: depois de rachar o rock ao meio com os Pistols, a desconstrução do pop, com o Public Image Limited

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Paradão do mês (outubro de 2009)

Pra quem notou a falta: agora, o 'Paradão' é mensal, reduzido a 20 canções, quase todas - nesta primeira 'edição', atrasada, todas - retiradas do irmãozinho radiofônico. Fica até mais fácil, pra quem quiser procurar: vai nos posts referentes aos programas do mês, que lá vão estar as informações sobre as bandas e os discos. Então, a primeira seleção, de outubro, ficou assim:


JESSE MALIN - Queen of the Underworld
ELLIOTT SMITH - Waltz # 2 (XO)
YACHT - The Afterlife
THE BUG c/ THE WARRIOR QUEEN - Poison Dart
METRONOMY - Heartbreaker
THS SLITS - Typical Girls
FLAMING LIPS - Silver Trembling Hands
GLASVEGAS - Geraldine
THE ANTLERS - Shiva
INSPIRAL CARPETS - Saturn 5
HAPPY MONDAYS - Hallelujah
PRIMAL SCREAM - Higher Than the Sun
THE FEELIES - The Boy With The Perpetual Nervousness
ANIMAL COLLECTIVE - Taste
THE WALKMEN - The Blue Route
ANTONY AND THE JOHNSONS - One Dove
WEEN - Voodoo Lady
JON SPENCER BLUES EXPLOSION - Rocketship
BEACH HOUSE - Wedding Bell
MAGAZINE - The Light Pours Out of Me


Aproveita e baixa essas canções aí e depois me diz: dá ou não dá umas duas horas de programação radiofônica bacana?

My Life in Lists - discos (60's)

Faz uma semana que entrei na famigerada era dos ‘enta’ – aquela em que, diz-se, o sujeito entra numa crise de identidade do c*, faz o primeiro balanço realmente consistente da vida e só termina com a entrada nos ‘ento’, se tiver sorte (e, quem sabe, juízo; ajuda da medicina também vem bem) ou o fim de tudo. Pra mim, a ficha não caiu, me sinto tão imaturo, descuidado com a saúde e hedonista – no bom e no mau sentido – quanto antes da data fatídica, e se for me valer de relatos de amigos – me estes não estiverem mentindo, inclusive pra si mesmos –, não muda nada, 40 é só o resultado da soma de 39 + 1. Não sei.

Mas o propósito aqui não é dividir com os amigos frequentadores do CM minhas alegrias, dúvidas, certezas (poucas, a socrática ‘só sei que nada sei’ seria uma delas) e angústias, pois o espaço, como já disse lá no início, quando entramos no ar em fevereiro, não é pra narcisismos do tipo ‘estou me sentindo assim ou assado hoje’ e besteiras do tipo. A ideia é fazer um balanço afetivo em termos de referências que ficaram, coisas que eu curti e curto ainda, que me enriqueceram de algum jeito (não em termos financeiros, é óbvio, se bem que a paixão pela música, pelo cinema e mais recentemente pelos livros acabou me levando à profissão que paga as minhas contas). Sendo assim, resolvi compartilhar com os amigos as minhas listinhas ... ‘Putz, de novo?’. Sim, há quem ache uma superficialidade atroz, uma coisa extremamente redutora, esse lance de elaborar listas, que virou uma mania manjada depois que o Nick Hornby fez sucesso com seu ‘Alta Fidelidade’. Mas popmaníacos, cinéfilos, bibliófilos e amantes do futebol sempre se divertiram fazendo as suas, e eu, pessoalmente, já enchia páginas e páginas de caderno quando passei a colecionar discos no segundo ano do segundo grau – meu pior ano letivo, onde a diversão tomou conta e o estudo, que já era escasso, foi pro espaço. Fichas técnicas de filmes começaram dois anos depois a ocupar o meu tempo mais do que estudar pro vestibular. E assim foi indo, até hoje. Não vou mudar. Não quero mudar.

Buenas, entonces, a partir de hoje passo a compartilhar com os amigos algumas referências minhas em discos, filmes, livros – os shows, os dez mais que presenciei com esses olhos e ouvidos que a Terra não há de comer tão cedo, tão lá num post bem no começo do blog, em fevereiro. Nesta primeira parte, falo sobre os discos, começando com a década em que nasci – e na qual vivi apenas os últimos 63 dias. Diz a Neném, minha 'companheira cósmica', que toda a semana a listas mudam - seja de filmes, bandas, discos, ... -, o que é um exagero, embora deva admitir que de tempos em tempos acho filmes, bandas, discos do coração - nessa primeira lista já incluí um. Bom, mas então fiquem à vontade pra comentar, mandar as suas próprias, se quiserem. Se não conhecem algum dos itens relacionados e quiserem procurar, já vai ter valido a pena. Enjoy it (or not)!


VELVET UNDERGROUND – The Velvet Underground & Nico (1967)
Provavelmente o melhor disco de rock de todos os tempos, o único capaz de rivalizar com qualquer um dos Beatles mais aclamados. Total novidade na época, e ainda uma raridade quando ouvido hoje em dia: um álbum de vanguarda que assim ainda soa 42 anos depois de lançado. Há que se ter muito colhão pra falar de sadomasoquismo, drogas com alto poder destruidor (heroína, anfetamina), e ser cruelmente sincero nas canções de amor em plena era do ‘verão do amor’, e Lou Reed tinha. O som, um mix de rhythm’n’blues sujo e ruidoso (by Reed, Sterl Morrison e a batida displicente de Moe Tucker) e que já antecipava o punk rock e referências vanguardísticas (by John Cale) que deram as diretrizes ao krautrock, soa novinho em 2009. Típico disco que não cansa. ‘Run, Run, Run’, hoje, é a minha preferida – mas esta já foi ‘All Tomorrow’s Parties’, ‘Black Angel’s Death Song’, ‘Venus in Furs’, ‘Sunday Morning’, ‘Heroin’, ... É inesgotável, não adianta. O V.U. gravou álbuns sensacionais, maravilhosos, antológicos, entre os melhores do rock de todos os tempos depois - 'White Light/White Heat', 'The Velvet Underground' e 'Loaded (esses dois sem Cale), o disco 'perdido' ('V.U.'), mas seu debut passa por cima de tudo e todos. A inovadora música conceitualmente imperfeita do Velvet acabou gerando uma obra ... perfeita.

LOVE – Forever Changes (1967)
Descobri a banda de Arthur Lee porque um dia li que era uma das influências do Echo & The Bunnymen – asssim como o Velvet, também. Isso é uma das coisas legais do pop, o sujeito descobre milhares de coisas a partir de referências anteriores. Um disco perfeito, belíssimo, recheado de cordas e metais – aí, voltando ao Echo, não dá pra deixar de lembrar de ‘Ocean Rain’ -, e canções maravilhosas com ‘Alone Again Or’, ‘A House is Not a Motel’ (uma das preferidas do Yo La Tengo), ‘Old Man’ ... Psicodelia californiana original, do mágico ano de 1967 (‘Younger Than Yesterday’, dos Byrds, a estreia dos Doors), um disco que igualmente não nos deixa jamais. Os dois primeiros do Love são excelentes, mas comparados com esse aqui ficam no chinelo.

SLY & THE FAMILY STONE – Stand! (1969)
O verdadeiro rei do funk rock, tristemente recolhido há quase três décadas, depois de se afundar nas drugs e se emaranhar no próprio ego (alguém pensou em Prince? Faltaram só as drogas). Sylvester Stewart é um visionário, o cara que antes de George Clinton e do próprio James Brown turbinou o funk e injetou molejo no rock. Stand!, além de politicamente relevante – chegou a ser adotado pelos Panteras Negras –, balizou a música black feita desde então – e não só: todo o pessoal do punk-funk, do funk-metal e várias correntes roqueiras devem as calças a Sly e sua ‘família’ multi-racial. ‘I Want to Take You Higher’ foi a primeira canção que ouvi, no saudoso ‘Negras Melodias’ do Júlio Reny, na Ipanema FM, mas a faixa-título, ‘Sing a Simple Song’ (a Ultramen tocava essa uma época), o manifesto anti-racismo ‘Don’t Call Me Nigger, Whitey’, todas as oito faixas são do cacete! O álbum, um dos que mais ouvi na vida, e sobretudo numa época feliz – o ano vivido na América, 1993 – tá disponível no mercado nacional de bônus num CD duplo com a apresentação da Família de Pedra em Woodstock.

JIMI HENDRIX – Axis: Bold As Love (1967)
Se Sly foi responsável pelo crossover definitivo do rock branco e a música negra, o bruxo Hendrix foi além, mixando elementos de jazz, latinidade, blues ... Isso sem falar nas experimentações diversas – o cara era um mago dos estúdios -, no uso revolucionário do feedback, nas excelentes composições, nos arranjos (extremamente econômicos, em se tratando de um virtuose). Não vamos nem mencionar a técnica do querido que não tem graça (mas repara só nas inúmeras mudanças de acordes da introdução de ‘Little Wing’). A levada hard blues de ‘If 6 Was 9’, o suíngue de ‘You Got me Floatin’’, ‘Castles Made of Sand’, o wah-wah de ‘Up From Skies’, o primor de canção que é ‘Wait Until Tommorow’. Se há uma majestade que não corre risco algum de ser destronada é o guitarrista americano. Arrisco dizer – putz, o cara prometeu que não viria com teses -, bom, na minha opinião, ... bem, Jimi Hendrix é o cara mais importante da história do rock, se tivesse que resumir 54 anos de história num nome só, seria o dele. Pronto, falei! Outra das audições constantes do inesquecível ano de 1993, nas terras dos irmãos do norte.

BEATLES – Revolver (1966)
Já eleito várias vezes o melhor disco de todos os tempos – embora às vezes suplantado pelo registro seguinte dos ‘Fab Four’, o igualmente monumental ‘Sgt. Pepper’s’ –, o primeiro álbum psicodélico dos Beatles me adentrou o cérebro (alojando-se no subconsciente para ali permanecer até hoje, produzindo flashbacks a todo instante) pela primeira vez naquele programa da Ipanema FM que apresentava álbuns clássicos, ‘Base Sonora’, então apresentado pelo Jimi Joe. Uma aula de engenharia sonora de sir George Martin, concisão e coesão da banda, as tradicionais melodias ganchudas – só uma entre ‘Eleanor Rigby’, ‘Here, There and Everywhere’, ‘For No One’ já justificaria o rótulo de clássico –, mas tem ainda rocks potentes (‘Taxman’), flertes com a soul music (‘Got to Get You Into My Life’) e o verdadeiro assalto à psique que é ‘Tomorrow Never Knows’, que fecha o disco. É inacreditável como ainda tenha gente hoje que não consiga enxergar o impressionante talento do quarteto, que conferiu maturidade sonora ao rock – um caso extremo de ‘miopia auditiva’, na boa. Uma coisa é gosto, outra são ideias. Roberto Carlos até pode ser discutível. Os Beatles não são.


KINKS – Something Else by The Kinks (1967)
Um dos últimos a entrarem pra essa minha galeria, adquirido no começo deste ano, em uma edição inglesa, remasterizada e com faixas bônus, juntamente com outros quatro clássicos da banda de Ray Davies, o grande cronista da Swinging London. Sempre fui fã dos caras, uma pena que não tenham tido o mesmo sucesso na América – e consequentemente no resto do mundo – que tiveram em casa (é batido mas verdadeiro o comentário: as letras, baseadas em tipos sociais tipicamente britânicos, eram inglesas demais). ‘You Really Got Me’, lá de 1964, é uma das canções mais importantes do rock, assim como ‘Lola’ e ‘Where Have All the Good Times Gone’, todas observações perspicazes sobre as mudanças de rumo a partir do surgimento da contracultura nos 60's. Essa bolacha aqui tem ‘David Watts’, ‘Death of a Clown’, ‘Harry Rag’, ‘Situation Vacant’, ‘Love Me Till the Sun Shines’, ‘Waterloo Sunset’, uma penca de canções clássicas do repertório dos Kinks, gravadas sobre uma base fluida, r’n’b sujo, na veia, feito por quem sabe (parecem até os Stones em dado momento). Brilhante, como quase todos os discos dos Kinks do período.


SAM COOKE – Night Beat (1963)
Já era vidrado em soul music, em especial em Marvin Gaye, quando, em outro ‘Base Sonora’ da Ipanema, dessa vez apresentado pela Kátia, tomei conhecimento das gravações de Sam Cooke, reunidas na coletânea ‘The Man and His Music’, de 1986 – que por sua vez havia sido tema da seção ‘Discoteca Básica’ da finada revista Bizz. Mas ‘Night Beat’ é um disco de carreira, em que Cooke, o soul man de quem certa vez Keith Richard comentou que todos queriam ser, mas, quando a ficha caía, acabavam voltando para seus empregos em postos de gasolina, mira o blues, revisitando ‘Little Red Rooster’, ‘Nobody Knows the Trouble I’ve Seen’ (minha preferida), ‘Lost and Lookin’’, ‘Mean Old World’, além de composições próprias. Mas atenção: não se trata de um disco de blues; é, sim um disco de Sam Cooke, o maior cantor soul de todos os tempos, que toma emprestados clássicos e o compasso característico do gênero pra exercer sua excepcional capacidade de enternecer até os corações mais duros. Assim como as boas antologias do cara – a citada ‘The Man and His Music’, a mais completa ‘Portrait of a Legend 1951-1964’, é disco que quando termina a gente põe pra tocar de novo.

BOB DYLAN – Highway 61 Revisited (1965)
Deste dá pra dizer que é um disco que tive de perder pra conhecê-lo realmente. Explico: a revolucionária ‘Like a Rolling Stone’ (tema de um ‘Versinhos Bacanas’ antigo aqui no CM) é a música preferida da minha mulher, e quando chegou a hora de sua colação de grau, há uns quase três anos, Neném me pediu o CD, pois queria usar a canção no momento em que fosse chamada pra receber o diploma. Ocorre que a maldita comissão de formatura jamais devolveu-lhe o CD – isso é que dá emprestar as coisas pra quem não se conhece, ainda mais pra uma ‘comissão’ –, e transcorridos vários meses, o mesmo foi definitivamente dado como desaparecido. Tempos depois, já devidamente ressarcido do valor, encontrei a versão remasterizada da obra, por um precinho convidativo, e investi novamente minha grana na sua aquisição. Ainda que a antiga versão de ‘Highway 61’ não seja tão tosca quanto, por exemplo, a de ‘John Wesley Harding’ – exemplo supremo de como emporcalhar uma obra sublime –, a versão pré-remaster não tem a riqueza dos timbres que a nova tem. Praticamente descobri um disco novo, em que ‘Ballad of a Thin Man’, ‘Just Like Tom Thumb’s Blues’, ‘It Takes a Lot to Laugh, It Takes a Train to Cry’, ‘Tombstone Blues’ e ‘Desolation Row’ brilham em todo o seu esplendor eletro-acústico, música americana moderna e roots ao mesmo tempo. Não dá pra viver sem.

ROLLING STONES – Let It Bleed (1969)
Entre as obras-primas dos Stones, cada um tem a sua preferida: ‘Beggar’s Banquet’, ‘Sticky Fingers’, ‘Exile On Main Street’, o primeiro de Jagger, Richards e cia. ... Pra mim, nenhum álbum dos caras é tão intenso quanto esse aqui – e sei que notórios fãs da banda na cidade, como o Paulo Moreira e a Kátia Suman tmabém pensam assim. Pra começar, ‘Gimme Shelter’, uma daquelas músicas que, assim como ‘Like a Rolling Stone’, ‘What’s Going On’, ‘Anarchy in the U.K.’ ou ‘Heartbreak Hotel’, merece tese sociológica – e ganhou, pelo scholar Greil Marcus, um dos melhores críticos de rock de todos. Quantos discos já começam com uma pedrada assim? Mas ainda tem a felicíssima versão de ‘Love in Vain’ (Robert Johnson), o bluesão ‘Midnight Rambler’, a hillbilly ‘Country Honk’, a urgente ‘Live With Me’, a super lazy ‘You Got the Silver’ (cantada por um Keith Richards inspiradíssimo no seu jeito eternamente largadão), a emocionante ‘You Can’t Always Get What You Want’, a esperta faixa-título e a bacaníssima ‘Monkey Man’, com sua levada funky afiada. Não é difícil entender por que aqui os caras já sustentavam o rótulo de maior banda de rock do mundo – mesmo com os Beatles, brilhantes e em forma (embora retirados dos palcos), ainda na ativa.

CAPTAIN BEEFHEART & HIS MAGIC BAND – Safe As Milk (1967)
Descoberta recente – recentíssima, aliás. Confesso que só conhecia, do Capitão, o ‘Trout Mask Replica’, seu terceiro disco, de 1969 – ‘Safe’ é o primeiro –, e ainda assim o havia escutado há muito tempo – seguramente mais de década e meia – e numa mixagem horrível, que não o favoreceu (assim como o fato de Beefheart, alcunha do californiano Don Glen Vliet, geralmente ser citado junto a Frank Zappa, um de meus desafetos históricos). Mas com esse relançamento, resolvi encarar, procurando as 19 faixas dessa nova edição na rede. Pois a partir de então, o negócio é o seguinte: como é que pude viver tanto tempo sem esse disco é um dos enigmas que mais me assaltam nos últimos tempos. Captain Beefheart – nesse disco, pelo menos – é seguramente um dos caras mais divertidos e anárquicos de todos os tempos, difícil achar um disco que combine aquele rockzinho de garagem intoxicante a la Troggs, blues de levada suja mas melódica no ponto, como faziam os Stones, vocal cavernoso de bebum à maneira de Tom Waits (aliás, a ordem certa é a inversa), experimentalismos psicodélicos que lembram certos momentos do ‘Sgt. Peppers’ e o bom humor e a anarquia que poderiam ter feito do Zappa um cara (musicalmente) legal se não fosse um virtuose pretensioso. ‘Sure Nuff ‘N’ Yes I Do’, ‘Zig Zag Wanderer’, ‘Call On Me’, ‘Dropout Boogie’, ‘I’m Glad’, ‘Electricity’, ‘Abba Zabba’, ... tão todas no meu paradão particular nos últimos tempos. O álbum foi relançado remasterizado recentemente, e com sete faixas-bônus. É produto altamente tóxico e vicia na hora, como – dizem –, o crack.

Pra encerrar, um esclarecimento que se faz necessário: os Beach Boys, em sua gloriosa fase psicodélica, não entrariam com 'Pet Sounds', mas com uma coletânea que incluísse 'Good Vibrations', 'Heroes and Villains' e naturalmente faixas do álbum supimpa de 1966, além de coisas posteriores e até anteriores, da subestimada fase surf ('Don't Worry Baby', 'California Girls') ou a versão '2 em 1' de 'Sunflower' (1969)/'Surf's Up' (1970) - só que aí adentraríamos a década seguinte e listando compilçaões, o que não é o propósito aqui, que é valorizar os discos de carreira. Pela mesma razão, os Doors ficam de fora: claro que assim como 'Pet Sounds', o disco de estreia de Jim Morrison e cia. é um marco incontestável, mas meu disco preferido do quarteto teria que incluir 'Moonlight Drive', 'People Are Strange', 'Waiting for the Sun', 'Wild Child', 'Love Me Two times', 'The Changeling', ... e nenhum álbum de carreira inclui estas, juntas - CDRs e MP3 fazem (já fizeram) o serviço. E a ideia aqui também não é listar os álbuns mais importantes da história do rock, mas os que pessoalmente me marcaram.

Então, é isso. That's all, folks! Na próxima, os controversos anos 1970 em que vivi a minha infância – e que forjaram um dos maiores times do futebol brasileiro de todos os tempos.

COMPANHIA MAGNÉTICA NO RÁDIO (8)

O programa deste sábado, no horário especial das 9 da noite, na FM CULTURA (107.7 no dial ou www.fmcultura.com.br na rede) terá:


1º bloco:
PJ HARVEY & JOHN PARISH – Black Hearted Love

A Woman A Man Walked By’ é o décimo disco de carreira da agora quarentona inglesinha enérgica, Polly Jean Harvey, o segundo co-creditado a seu guitarrista, John Parish (o primeiro havia sido ‘Dance Hall at Louse Point’, acústico, de 1996). Esse é mais barulhento e com algum experimentalismo, lembrando a sonoridade agressiva dos dois primeiros álbuns de PJ – ‘Dry’ (1993) e ‘Rid of Me’ (1994) –, com uma levada bluesy que é sua característica. O curioso é que PJ vem de um disco leve, cheio de baladas ao piano, ‘White Chalk’.


SUNSET RUBDOWN – Idiot Heart
Banda canadense de Montreal, projeto de um sujeito chamado Spencer Krug, um prolífico tecladista, cantor e compositor que empresta seus serviços também a bandas como Wolf Parade e Frog Eyes e tem já quatro discos do Sunset Rubdown lançados em quatro anos – o primeiro, ‘Snake’s Got a Leg’ (2005) levava o nome do grupo mas na realidade tratava-se de um projeto solo, só depois formaria-se uma banda fixa em torno do cara, que faz um som ao mesmo tempo pop e experimental, com referências ao glam rock de David Bowie e T-Rex. ‘Dragonslayer’, lançado em junho, é o álbum mais recente.

FUCKED UP – Crooked Head
Outro grupo canadense, este Ontario, na ativa desde 2001, mas que, como o nome já sugere, tem os dois pés bem cravadinhos no punk rock. O curioso é que os caras da banda atendem todos por pseudônimos: Pink Eyes (ou Father Damien), nos vocais, 10,000 Marbles, Concentration Camp e Young Governor nas guitarras – sim, os caras têm três guitarristas! – lala, o baixista Mustard Gas e o baterista Mr. Jo (também conhecido como Guinea Beat). Mais curioso ainda é que os caras, entre singles, E.P.s e álbuns, vários deles em vinil apenas, tem mais de 40 (!) discos lançados. ‘The Chemistry of Common Life’ é o elogiado álbum do ano passado.


2º bloco:
DEATH IN VEGAS c/ NICOLA KUPERUS – The Hands Around My Throat

Projeto da dupla londrina Richard Fearless e Tim Holmes, produtores e multi-instrumentistas, que juntam uma penca de influências, que vão do trip-hop ao big beat, do noise do My Bloody Valentine à lassidão do Velvet Underground. Lançaram um dos discos mais aclamados dos anos 90 há exatos dez anos, ‘The Contino Sessions’, seu segundo álbum, cheio de participações bacanas (Jim Reid, do Jesus and Mary Chain, Bobby Gillespie, do Primal Scream, Iggy Pop), e no disco seguinte, ‘Scorpio Rising’ (de 2003, o único lançado no Brasil), inspirado no filme homônimo de cineasta maldito Kenneth Anger, mais uma penca de convidados dava as caras: Paul Weller, Hope Sandoval, Dot Allison, e até Liam Gallagher.

THE RAPTURE – Sister Saviour
Quarteto novaiorquino, já se apresentou no Brasil – no Tim Festival de 2003, justamente o ano de lançamento de seu segundo álbum, o aclamado ‘Echoes’, que chegou a ser escolhido disco do ano pelo influente site Pitchfork. Referências oitentistas não faltam: o mix punk-funk-disco claramente paga tributo à Gang of Four, o vocal chorão de Like Jenner lembra de cara Robert Smith. O Rapture, que já tem 11 anos de estrada, tem como último disco o mix-album ‘Tapes’, do ano passado.

CUT/COPY – Unforgettable Season
Este é australiano, trio de Melbourne, que faz um dance-rock melodioso e ganchudo, com alto potencial radiofônico mas com cara indie, que lembra demais o New Order em alguns momentos, e teve seu terceiro disco, ‘In Ghost Colors’ – lançado no Brasil sem alarde –, entre os mais elogiados do ano passado. Outra banda que iniciou como trabalho solo – no caso, do vocalista, compositor, produtor e DJ Dan Whitford, em 2001.


3º bloco:

Especial MISSION OF BURMA (‘Signals, Calls, and Marches’, 1981; ‘Vs.’, 1982)
Contemporâneos de R.E.M., Sonic Youth, Meat Puppets e Replacements, mais uma banda da gloriosa cena pós-punk americana que voltou à ativa nesta década, depois de vinte anos de retiro: o recém lançado ‘The Sound The Speed The Light’ – saiu lá fora mês passado – é o terceiro dessa volta, que começou com ‘OnOffOn’, de 2004, e tece seguimento com ‘The Obliteratti’ dois anos depois, todos sob a chancela da antenada Matador Records novaiorquina.

O Mission of Burma é de Boston e suas origens remontam ao ano de 1980, tinha na sua formação inicial o guitarrista, cantor e compositor Roger Miller, o baixista Clint Conley, o baterista Peter Prescott e o maniupulador de tapes Martin Swope. O MOB é uma banda que combina atitude e agressividade punk e intenções artísticas de college bands típicas, tipo Sonic Youth, Gang of Four, Wire ou os Talking Heads. As apresentações dos caras, que estendiam as músicas muito além de sua duração original, destacando-se aí o feedback da guitarra de Miller, fizeram a fama do grupo – que inclusive apresentou-se em um festival no interior de São Paulo, onde tocaram com o Supergrass uns anos atrás. Em sua primeira encarnação, inclusive, o MOB foi, vitimado principalmente em função do ensurdecedor barulho que fazia ao vivo: Miller passou a apresentar problemas sérios de audição, incluindo um zunido infernal nos tímpanos que quase o levaram à surdez. A banda então tinha deixado apenas dois discos, excelentes: o E.P. ‘Signals, Calls, and Marches’, de 1981, e o álbum ‘Vs.’, de 1982.

Com o fim do grupo, após uma derradeira final em 1983 – que resultou no álbum ao vivo ‘The Horrible Truth About Burma’ –, Miller partiu pra carreira solo, Prescott formou outra supercultuada banda, o Volcano Suns, e depois o Kustomized, e Clint Conley atacou de produtor do primeiro disco do Yo La Tengo antes de se retirar do meio musical, pra se dedicar ao ofício de produtor de TV. Mas em 2001, Prescott, que então tocava em uma banda chamada Peer Group, foi convidado a abrir a turnê de reunião do Wire, e acabou convidando seus velhos parceiros Clinton e Prescott pra se juntarem a ele. No ano seguinte, tava decidida a volta do Mission of Burma, mas sem Martin Swope, que preferiu ficar na sua – sendo substituído por Bob Weston, ex-Volcano Suns.



That’s When I Reach For My Revolver
Academy Fight Song




Secrets
Trem Two
That’s How I Escaped From My Certain Fate










O Mission of Burma dos anos 1980 ...









... e o de hoje: lições de como fazer punk "artístico" sem soar chato ou pretensioso

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

COMPANHIA MAGNÉTICA NO RÁDIO (7)

No COMPANHIA MAGNÉTICA deste sábado, 31 de outubro, no horário especial das 9 da noite na FM CULTURA (107.7 ou www.fmcultura.com.br), vamos estar apresentando o primeiro programa dedicado a uma banda só, e uma das 10 mais de sempre de CM: os góticos originais SIOUXSIE AND THE BANSHEES (pelo óbvio motivo de que sábado é dia de Halloween, é claro). Vamos rodar faixas dos cinco primeiros discos do grupo - 'The Scream' (1978), 'Join Hands' (1979), 'Kaleidoscope' (1980), 'Juju' (1981) e 'A Kiss in the Dream House' (1982) -, justamente a fase mais quente do grupo. O playlist tá aí embaixo. Enjoy!

Nosso especial de ‘Halloween’, o primeiro COMPANHIA MAGNÉTICA dedicado inteiramente a apenas um artista – no caso, uma das poucas bandas da história do rock que podem se gabar de ter inventado um estilo, o gótico. As origens do grupo, ideia da cantora Susan Janet Dallion e do baixista Steve Severin, remontam a um show do Roxy Music em setembro de 1975, em Londres, em que se encontraram. Severin lembra que na época "era possível ver toda semana bandas como o Can e os New York Dolls, mas como o glam rock estava murchando e Bowie e o Roxy ficando grandes demais, não havia muita coisa com que se pudesse identificar". Até que apareceram os Sex Pistols – e ao redor deles, formou-se o famoso "contingente do Bromley", um grupo de fãs que os seguia por toda a parte e incluía também Tony James e Billy Idol, que logo fundariam o Generation X. Severin e Susie – agora com o nome alterado para Siouxsie Sioux – estreariam então em 20 de setembro de 1976 e a banda tiraria seu nome de um filme b de terror inglês de 1970 estrelado por vincent Price, ‘The Cry of a Banshee’. Detalhe: os Banshees substituíram um grupo que se apresentaria no lendário Punk Festival organizado por Malcolm McLaren no 100 Club londrino e que desistiu na última hora. Susie então convenceu Severin e mais duas outras figuras que frequentavam a cena a punk local a tocar uma versão de 20 minutos de ‘The Lord’s Prayer’, o que irritou profundamente a maioria da platéia. (Ah, os outros dois ‘músicos’ da banda eram o guitarrista italiano Marco Pirroni, que depois tocaria com Adam & The Ants, e um baterista de nome John Simon Richie – que entraria para a história do rock a seguir sob o codinome Sid Vicious). Mas a formação que gravaria o primeiro single, ‘Hong Kong Garden’, e o álbum de estreia, ‘The Scream’, ambos de 1978, já seria outra, com o guitarrista John McKay e o baterista Kenny Morris – que também não durariam muito no grupo.

Apesar da boa repercussão do primeiro disco, a banda teria problemas na sequência, com as saídas de Morris e McKay. Eles ainda registrariam suas participações em ‘Join Hands’ (1979), o álbum seguinte – recebido com reservas pela crítica, basicamente por tratar-se de uma repetição do primeiro –, mas deixaram Siouxsie e Severin na mão bem no momento em que se preparavam pra primeira grande tour do grupo. Pra preencher as datas já agendadas, o manager do grupo sugeriu Budgie, que tocava com as Slits, pra bateria, e pra guitarra, o próprio Robert Smith, líder do Cure, banda então encarregada de abrir os shows dos Banshees, ofereceu seus serviços – mas teve de voltar ao Cure e seus compromissos logo depois. No seu lugar, entra então o melhor guitarrista que passou pela banda, John McGeoch, ex-Magazine (banda de Manchester que mereceu um míni-especial aqui semana passada), mas no terceiro álbum, ‘Kaleidoscope’ (1980), toca também o guitarrista dos Pistols, Steve Jones. Esse é provavelmente o disco mais variado dos Banshees, onde começam a aparecer as primeiras referências psicodélicas, e o som, mas sofisticado, inclui drum machines, sintetizadores, cítara e uma série de efeitos sonoros. O álbum também fez bonito nas paradas, chegando ao quinto lugar nos charts britânicos, e emplacou os hits ‘Happy House’ e ‘Christine’. São dessa época também os primeiros shows americanos dos caras – tocaram em Nova Iorque em novembro de 1980.

Na sequência de ‘Kaleidoscope’, vem aquele que pra muitos é o melhor disco de Siouxsie and The Banshees: ‘Juju’ (1981), mais sombrio do que o anterior, com John McGeoch definitivamente integrado (e entrosado) ao grupo, foi praticamente todo testado ao vivo antes de ser gravado: os caras tocaram sucessivas vezes ao vivo as músicas antes de registrá-las. Também fez sucesso: chegou ao nº 7 das paradas na iIlha. Por essa época, também começava a se formar o primeiro projeto paralelo de integrantes do grupo – no caso, os Creatures, do agora assumido casal Siouxsie e Budgie, com grande influência de world music, o que viraria uma marca do trabalho dos Banshees em seguida, como prova o quinto álbum, ‘A Kiss in the Dream House’ (1982). É definido pela cantora Siouxsie como um disco "sexy". O problema é que de novo a banda passariam por mudanças em sua formação: o guitarrista McGeoch, com problemas de saúde relacionados ao alcolismo, teve de se internar em Madri, dando chance para que mais uma vez Robert Smith assumir o posto. Como depois da recuperação, McGeoch resolveu não voltar à banda, o homem de frente do Cure acabou ficando, participando das gravações dos álbuns ‘Nocturne’ (1983, ao vivo) e ‘Hyaena’ (1984, o primeiro lançamento dos Banshees no Brasil), até que sua banda novamente precisasse de sua atenção em tempo integal novamente – a partir do estouro de ‘The Head On The Door’, em 1985. Mas embora a banda ainda registrasse grandes álbuns depois – como ‘Tinderbox’, em 1986, ‘Peepshow’ (1988) e ‘Superstition’ (1991), a fase realmente quente da banda, pode-se dizer, é a dos cinco primeiros discos.

1º bloco:

Hong Kong Garden



Mirage






Playground Twist






2º bloco:
Happy House
Christine
Paradise Place




Israel

3º bloco:

Spellbound
Arabian Nights
Sin in My Heart



Cascade
Melt!














Budgie, Siouxsie e Severin, o trio básico: eu era gótico antes de você ser gótico






Com McGeoch (ao fundo), um dos raros 'guitar heroes' do pós-punk: a melhor formação

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

COMPANHIA MAGNÉTICA NO RÁDIO (6)

Playlist do programa deste sábado, 24/10, excepcionalmente às 21h (*) na FM CULTURA, 107.7 (ou www.fmcultura.com.br):

(*) não esquece que neste e nos próximos três sábados, o programa vai ao ar uma hora mais cedo. Depois, volta ao horário tradicional.


1º bloco:

LYNNFIELD PIONEERS – Maximum Sunshine
Divertido trio novaiorquino formado no Brooklyn em 1997 (já encerrou as atividades), teve o nome tirado do time de futebol dos caras nos tempos de colégio e descrevia seu som como ‘hip-hop-no-wave’. Mais uma banda que não tinha baixo: os integrantes era o cantor e tecladista Dan Cook, o guitarrista Mike Janson e o baterista John Paul Jones (não é a mesma pessoa que o baixista do Led Zeppelin, é claro). Deixaram um E.P. e dois álbuns – sendo o último ‘Free Popcorn’, de 1999 – e chegaram a ser sensação do circuito alternativo novaiorquino por um tempo.

LIARS – Mr. Your On Fire Mr.
Uma das principais bandas da atualidade, os caras são ex-estudantes de artes californianos, que mudaram-se pra Nova Iorque – onde surgiram, no começo desta década, junto com Yeah Yeah Yeahs, Strokes e TV On The Radio – e de lá pra Berlim, onde residem atualmente. As principais influências do grupo são basicamente daqueles grupos pós-punk britânicos que fundiam ruído, experimentalismos e uma levada funk – tipo o P.I.L., a Gang of Four, A Certain Ratio e o Pop Group. Têm quatro álbuns, todos elogiados, sendo que o último, de 2007, leva apenas o nome da banda. ‘They Threw Us All in a Trench and Stuck a Monument On Top’, o debut, veio em 2001.

JONATHAN FIRE-EATER – Give Me Daughters
Banda que encerrou as atividades há mais de 10 anos, foi citada aqui no último programa, quando a gente rodou o The Walkmen, formado a partir dos escombros do Jonathan Fire-Eater e também dos Recoys. O Fire-Eater era um quinteto formado por amigos que cresceram juntos em Washington D.C. e mudou-se pra Nova Iorque, onde os caras passaram a viver juntos. Não tardariam a tornar-se uma das sensações da cidade, por conta de suas apresentações ao vivo, e após o elogiado E.P. ‘Tremble Under Boom Lights’, assinaram com a DreamWorks, lançando em 1997 o igualmente bem recebido álbum ‘Wolf Songs for Lambs’, que infelizmente não se garantiu em termos de vendas, e a banda resolveu então encerrar as atividade no ano seguinte.


2º bloco:

BUILT TO SPILL – Hindsight
Pouco conhecida por aqui, mas já veterana da cena alternativa americana (não se pode falar em indie, pois foram contratados pela Warner em meados da década passada e lá estão até hoje). O Built to Spill foi formado em 92 em Boise, Idaho, por Doug Martsch, guitarrista, vocalista e compositor – e o dono da bola: o BTS, basicamente, é um veículo dele. O som do grupo também tem ênfase na guitarra do cara – é a típica guitar band indie americana dos anos 90, cujo som faz referência a Neil Young & Crazy Horse e Television, entre outros. ‘There Is No Enemy’, que saiu lá fora no início do mês, é o oitavo álbum da banda desde 1993 (são 7 discos de estúdio e 1 ao vivo).

WILD BEASTS – Hooting & Howling
Grupo inglês de Leeds, começou em 2002 como um duo, formado pelo cantor Hayden Thorpe e pelo guitarrista Ben Little à época, a dupla se chamava Fauve. A principal marca do WB é a voz em falseto de Thorpe, que lembra algumas velhas gravações dos Smiths. Os caras, que hoje são um quarteto, já têm dois álbuns em apenas dois anos: ‘Limbo, Panto’ foi lançado no ano passado, ‘Two Dancerssaiu agora em setembro.

BEACH HOUSE – Wedding Bell
Duo americano de Baltimore, tem a curiosidade de ter na sua formação a sobrinha do compositor francês Michel Legrand, Victoria, nos vocais e teclados – o outro integrante é o também vocalista e tecladista Alex Scally. O som dos caras é um dream pop elegante e agridoce, valorizado pela voz suave de Victoria. Estão na ativa desde 2005, e têm dois discos: ‘Beach House’, de 2006, e ‘Devotion’, do ano passado.

THE DIRTY PROJECTORS – Stillness is the Move
Projeto de Dave Longstreth, um ex-estudante da prestigiada universidade de Yale, que resolveu largar tudo pra se dedicar à carreira musical. O primeiro álbum do cara, ‘The Graceful Fallen Mango’, leva apenas seu nome, já no seguinte, ‘The Glad Fact’, já aparece o nome The Dirty Projectors, que tem um som experimental mas de teor pop, formação flutuante e chega a ter 6 ou 7 integrantes ou até mais. Um dos mais curiosos lançamentos dos caras é o álbum de 2007, ‘Rise Above’, em que Longstreth e parceria recriam 11 das 15 faixas de ‘Damaged’, clássico hardcore do Black Flag. O disco mais recente é ‘Bitte Orca’, já cotado como um dos melhores lançamentos de 2009.


3º bloco:

especial MAGAZINE – ‘Real Life’ (1978)
O especialzinho da semana é dedicado a mais uma daqueles grupos muito falados e pouco ouvidos (pelo menos por aqui) do pós-punk britânico: formado em Manchester pelo ex-Buzzcocks Howard Devoto, o Magazine tinha um som mais elaborado que a maioria de seus contemporâneos, fazendo referência ao Roxy Music, à trilogia berlinense de David Bowie e aos discos mais melódicos e menos ásperos de Iggy Pop, o que não impedia os caras de soarem viscerias e nervosos. Para os padrões punk da época, os músicos do Magazine eram, digamos, quase virtuosos: pelo menos dois deles estão entre os músicos mais talentosos dá época, o guitarrista John McGeouch, que depois tocaria na melhor fase de Siouxsie & The Banshhes e viria ao Brasil com o P.I.L., e o baxista Barry Adamson, que foi integrante dos Bad Seeds de Nick Cave e tem um intrigante trabalho solo que tem uma cara de música para filmes imaginários (e sinistros).
Devoto, um dos personagens do filme ‘A Festa Nunca Termina’ (cúmplice da primeira mulher de Tony Wilson em um vingança praticada no banheiro de uma casa noturna contra um adultério cometido instantes antes pelo marido, também faz uma ponta no filme) foi um dos promotores do famoso show dos Sex Pistols no Lesser Trade Hall em Manchester em 1976 que impulsionou a cena musical da cidade, e saiu dos Buzzcocks logo após o lançamento de ‘Spiral Scratch’ pra formar sua própria banda. O primeiro single do Magazine é ainda uma parceria com seu ex-colega Pete Shelley, ‘Shot By Both Sides’ e foi lançado no começo de 1978, poucos meses após o primeiro show, no inverno do ano anterior. O festejado disco de estreia, ‘Real Life’, viria na sequência, mas sucessivas mudanças de formação atrapalharam a carreira do grupo, que ainda lançaria dois ótimos discos de estúdio – ‘Secondhand Daylight’ (1979) e ‘The Correct Use of Soap’ (1980), além do irregular ‘Magic, Murder and the Weather’ (1981) e o ao vivo ‘Play’, até Devoto largar a barca em maio de 1981. Devoto partiu então para a carreira solo, e, esporadicamente, a banda ainda se reune algumas vezes.

Definitive Gaze
Shot by Both Sides
Motorcade
The Light Pours Out of Me











Howard Devoto à frente do Magazine, no final dos 70's ...






... e nos dias de hoje: 'facilitador', testemunha ocular e protagonista da história