sexta-feira, 15 de maio de 2009

Ela é Magnética (1) – BETH DITTO

Bota magnética nisso. Tão magnética que, apesar de pesar (bem) mais de 100 quilos – ela diz que são só 97, mas repara na foto aí e me diz se é só isso –, não apenas virou musa fashion como adquiriu até um inusitado status de símbolo sexual. É mole? Com certeza – na região abdominal, nas cochas, nos braços, no pescoço, por tudo –, mas pelo jeito há quem goste: ela foi considerada a "Mulher Mais Sexy do Ano" pelo semanário britânico New Musical Express em 2007. Um ano antes, já tinha sido eleita pelo mesmo NME a pessoa mais cool do rock atual. De lá pra cá, capas e mais capas de revistas bacanas, algumas delas nuazinha em pelo – como o primeiro número da Love, cuja matéria de capa destacava os "Ícones de nossa geração: Iggy Pop, Amy Winehouse, Lilly Allen, Eva Mendes, Courtney Love, Anjelica Huston, Kate Mosso, Pixie Geldof (filha de Bob), Sofia Coppola, ... e ela, Beth Ditto.

A gordinha simpática é vocalista do The Gossip, trio formado no Arkansas de Bill Clinton há 10 anos, mas que tem sua base em Olympia, estado de Washington, no gelado noroeste dos Estados Unidos, perto de Seattle e Portland, no Oregon, epicentro da mais profícua cena rock daquele país desde antes do grunge – é também entre Portland e Olympia que a gravadora Kill Rock Stars, que lançou os três discos de estúdio do Gossip, mantém suas bases. O Gossip apareceu pro mundo pop principalmente por conta de uma turnê com o White Stripes, em 2001, e além de Beth tem ainda o guitarrista Nathan e a baterista Kathy, o que reforça as comparações com a banda de Jack e Meg White: as duas formações não têm baixista, o som é indie rock lo-fi, econômico, mesclado com as raízes da música americana. Mas o negócio para por aí: enquanto os WS carregam no blues e no folk, o vozeirão de Beth e a levada pegajosa de Nathan apontam para o groove do soul e do funk. As performances de palco são contagiantes, pra quem já teve a oportunidade de vê-los, nem que seja no Youtube. Não foi o meu caso.

Uns dois anos atrás, na Usina do Gasômetro, tava passando um documentário excelente – na minha modesta opinião, um dos melhores filmes desta década fácil, fácil –, chamado ‘Tarnation’ (muito em breve pauta aqui do blog), feito com pouquíssim grana e muita inventividade, de um cineasta americano, Jonathan Caouette. A Coordenadoria de Cinema e Vídeo trouxe o cara, não só pra mostrar o ‘Tarnation’, nunca lançado no Brasil, mas também pra uma palestra e exibições de outros trabalhos seus, e entre esses, um outro documentário sobre o festival alternativo ‘All Tomorrow’s Parties’, que já teve curadoria de Morrissey e do Sonic Youth, entre outros. Lá pelas tantas, entre as loucuras de bastidores daquela galera escalada pro evento e cenas de shows de vários grupos, eis que aparece uma banda fazendo um som contagiante com o mínimo de recursos, muita pegada e muito suíngue, e com uma vocalista enorme, mas sem o menor medo de ser feliz, surpeendentemente se movimentando sem parar, e dotada de um vozeirão de cantora black de arrepiar. O Cauoette, a quem já tínhamos cumprimentado após a exibição de ‘Tarnation’, dias antes, passava por trás da platéia presente, e eu tive de perguntar: como é o nome da banda da gordinha? "The Gossip", ele respondeu. "Cool, isn’t she?". "Definately". Corri pra internet. ‘That’s Not What I Heard’ (2000), ‘Movement’ (2003) e ‘Standing in the Way of Control’ (2005) são os ótimos discos de estúdio, todos lançados pela Kill Rock Stars. ‘Undead in NYC’ (200) e ‘Live in Liverpool’ (2008) são os ao vivo. ‘That’s Not ...’ e ‘Standing ...’, pra quem quiser baixar, cabem em um único CD. Pudera, as músicas do Gossip são curtíssimas: no primeiro álbum, a mais longa faixa é ‘Heartbeats’, que não chega a 2 minutos e 30 segundos. Ou seja, O Gossip o pessoal do Gossip é daqueles que reza rigorosamente pela cartilha do indie rock: menos sempre é mais. E o negócio pega forte: experimenta ficar parado ao ouvir ‘Yr Mangled Heart’, por exemplo.

Mas voltando a Beth. A moça, além de carisma pessoal, grande voz e o inusitado que faz dela uma figura sui generis no universo rock de hoje, tem atitude de sobra, e é isso que a faz ser a personagem que é. ‘Standing in the Way of Control’, a música ("We live our lives/Because we're standing in the way of control"), é uma resposta irada à decisão governamental de vetar casamentos de pessoas do mesmo sexo – Beth, além de lésbica assumida, é defensora ferrenha e implacável dos direitos dos gays, e feminista convicta. Até pousou peladona pra capa da revista erótica On Our Backs, dedicada ao público gay feminino, o que define como um grande momento de sua vida. Também costuma tirar a roupa em pleno palco, mostrando não só a avantajada comissão de frente, mas o resto todo, incluindo a perereca. Protestou contra a rede de lojas Topshop, por esta não disponibilizar roupas pra gente do tamanho dela – prontificou-se, inclusive, a projetar ela mesma os modelos. Canta ‘Smells Like Teen Spirit’ nos shows de sua banda. Considera-se punk de carteirinha e tem verdadeira devoção pelo X-Ray Spex, grupo britânico da safra 1977 (geração dos Pistols, Clash, Damned, Buzzcocks, ...), que legou ao mundo o clássico ‘Free Germ Adolescents’ (1978) e tinha na vocalista Poly Styrene uma das figuras mais emblemáticas do punk londrino, e cujo single de estreia, ‘Oh Bondage, Up Yours!’, um potente libelo feminista. Um ano atrás, quando o grande assunto do showbizz era uma possível volta do Led Zeppelin, Beth deu de ombros: "não poderia me importar menos com isso. Sinceramente, preferia que fosse o X-Ray Spex quem estivesse voltando". Também diz que não depila as axilas nem usa desodorante, já foi parar num hospital psiquiátrico e namora um rapaz – travesti, a mulher do casal, obviamente.

Beth, que quase apresentou-se no Brasil ano passado com sua banda – o Gossip tava escalado pro Tim Festival, mas cancelou na última hora –, tem um disco solo, não lançado, com produção do lendário Calvin Johnson, líder do influente Beat Happening e dono da K Records, de Olympia, Washington (Kurt Cobain tinha o símbolo da K tatuado no braço). Com Johnson, gravou a faixa ‘Lightning Rod for Jesus’, que aparece no álbum solo dele de 2002, ‘What Was Me’. Aproveitando o prestígio angariado junto aos modernos – fez amizade com Kate Moss e recebe regularmente consultoria fashion da top magrela –, escreve uma coluna semanal no respeitabilíssimo jornal inglês The Guardian, todas as sextas-feiras, intitulada ‘O Que Faria Beth Ditto?’ (te mete!). Mora em Portland. Veio pra ficar, não há dúvida.

A fofucha Beth Ditto, novo sex symbol e ícone fashion, na Love, no NME e indo às compras com Kate Moss: e aí, que tal?

terça-feira, 12 de maio de 2009

Siglas que definem uma vida: o CBGB

Tinha 24 anos e alguma coisa quando pisei lá. Tava me preparando pra voltar ao Brasil, de onde tinha partido no dia 26 de fevereiro daquele ano - dois dias antes de explodir uma bomba na garagem do World Trade Center, justo no dia em que cheguei em L.A. -, já havia vendido o carro (um Toyota Corolla 1980 com aspecto lamentável, que me custou 800 dólares, mais as taxas pra regularizá-lo), empacotado as coisas e deixados-as divididas em três lugares: com meu amigo – e agora ex-roomate – Alemão, minha prima residente lá havia três anos, e num storage (a bateria que tinha comprado, mais umas bugugangas). Era dezembro de 1993 (ou janeiro de 94?), tinha passado pela quarta vez por San Francisco – onde quase chorei ao mirar a Golden Gate, numa noite de domingo, pela última vez – e, antes da ida a Portland (a do Oregon, famosa pela cena musical riquíssima e por ser o lar de Gus Van Sant), onde encontraria meus amigos Boca e Dado, pegar as tralhas em L.A. e rumar de volta pro Brasa, fui passar uns dias na big apple, que era onde eu queria morar desde o início – sonho com isso até hoje. Em lá chegando, a primeira coisa que fiz depois de me instalar no New York Hostel – o imenso casarão na Broadway com a 103st, próximo ao Harlem –, foi tentar descolar um Village Voice pra saber dos shows, minha primeira e quase única preocupação em todo o tempo (10 meses e meio) de América. Tinha shows de Astrud Gilberto no Sounds of Brazil e Herbie Hancock no Blue Note na mesma noite, tinha Naná Vasconcellos outro dia, Pretenders acústico em outro, mais o James Blood Ulmer, aquele guitarrista cult que junta uma cacetada de referências, ... mas um em especial chamou minha atenção de cara: dizia lá "BAND OF SUSANS (uma banda da qual tinha ouvido falar super bem, mas ainda não conhecia) com abertura de 360’S (quem?) e VODKA (hã?)". Beleza, vou conhecer a tal banda das Susans, que tivera discos muito elogiados (‘Love Agenda’, por exemplo) nas seções de importados das revistas nacionais e de onde tinha saído o Page Hamilton, do Helmet, uma banda que eu curtia muito então. Mas na real não eram as bandas que importavam, mas o local. Tava lá impresso no anuúncio do show aquela sigla mágica, que povoava meu imaginário havia uns dez anos, mais ou menos, e uma das grandes razões pra empreitada na América: C.B.G.B. Teria ido lá até se fosse um show da Ivete Sangalo, do Jota Quest, dos Engenheiros do Havaí, Claus e Vanessa, Chimarruts ou qualquer bosta dessas aí – lamentando profundamente que essa espécie de gente tocasse lá, é óbvio, o que, claro, jamais aconteceria, de jeito algum – só pra pisar no lugar.

O CBGB & OMFUG, seu nome completo (‘Country, Bluegrass, Blues and Other Music for Uplifting Gormandizers’, ou ‘Country, Bluegrass e outras músicas para elevar o espítiro de glutões’) foi fundado por Hilly Kristal – que explicava que a expressão "glutões" do título do seu clube não se referia exatamente a comilões, mas a "vorazes consumidores de música" – em dezembro de 1973. A idéia original era mesmo apresentar shows de música popular americana de raiz (country, bluegrass, ...) e leitura de poesia, bem na tradição dos cafés boêmios do Village novaiorquino por onde passaram os beats, Dylan, etc. nas duas décadas anteriores. Porém, um belo dia, dois frequentadores, Bill Page e Rusty McKenna, foram ter com Kristal pra que ele passasse a agendar show de novos artistas, uma vez que o Mercer Arts Center, tradicional reduto underground, havia fechado as portas pouco antes das abertura do CB’s – o Suicide e o transexual Wayne/Jane County, por exemplo, tocavam lá. Com o tempo, mais artistas da então chamada "street music" pintariam na casa do Bowery: o Television adonou-se das noites de domingo, sendo a primeira banda regular do estabelecimento, o Blondie (primeiro sob o nome de The Stillettoes, depois Angel & The Snake), os Talking Heads, Johnny Thunders, ex-New York Dolls, e sua nova banda, os Heartbreakers, e um quarteto de calças rasgadas, tênis sujos, jaquetas de couro e corte de cabelo que lembrava crianças com síndrome de down, que se tornaria o próprio sinônimo de punk rock americano: os "irmãos" Ramones. Patti Smith e seu guitarrista, Lenny Kaye, também já rondavam a área, e em breve tomariam coragem pra subir ao palco também. A única exigência pra se apresentar na casa era ter material próprio – o sujeito podia emendar uns covers, mas precisava apresentar eminentemente repertório seu. Logo, logo, a fama do C.B.G.B. espalhou-se pelo país e fora dele: além de impulsionar as carreiras desse pessoal do punk/new wave americanos (Richard ‘Please Kill Me’ Hell, Cramps, Dictators, os Dead Boys e o Pere Ubu, vindos de Cleveland, ...), foi a porta de entrada para artistas emergentes de outras bandas, como o Police (?!), que tocou lá em 1978.

A casa rival do CB’s foi o Max’s Kansas City, que abrigara os shows de despedida do Velvet Underground – manja aquele disco ‘Velvet Underground Live at Max’s Kansas City’? Foi gravado lá, com um gravadorzinho cassete, pela secretária de Andy Warhol, Brigid Polk (é, portanto, uma gravação pirata depois oficializada) –, teve como banda "residente" os New York Dolls, foi o local da prisão de Alice Cooper em sua primeira tour novaiorquina mais longa, e por onde Iggy e seus Stooges passaram quebrando tudo (com o Iguana inclusive esfolando a si mesmo) em 1973, mas a política do Max’s era um tanto discriminatória: os caras só agendavam pra tocar bandas que tivessem contratos com gravadoras. O Max’s também adquirira mais uma fama de local para um "hanging out" – Andy Warhol, sua musa Candy Darling e até Zsa Zsa Gabor costumavam dar as caras por lá. No CB’s, não: o sujeito tava lá pra ver o show - e uma vez pago o ingresso, não tinha aquela de dar migué de ir dar um rolé na vizinhança e voltar. Foi ao ar, perdeu o lugar. A competição entre as duas casas deu-se principalmente em função do sucesso dos festivais de verão, dedicados a bandas novas, sem gravadora, do CB’s. O pessoal do Max's então procurou Kristal pra propor-lhe o seguinte "acordo de cooperação": que não agendassem as mesmas bandas – ou bandas de mesma proporção – pra mesma noite. Ocorre que, enquanto o Max’s oferecia uma noite pros músicos, Hilly já ia agendando três de cara. Óbvio que o CB’s ficava com a preferência.

O CB’s também tinha um ambiente mais caseiro, como nota David Byrne, no livro ‘From the Velvets to the Voidoids – A Pre-Punk History for a Post-Punk World’, do jornalista inglês Clinton Heylin, lançado em 1993: "o CBGB’s era o tipo de lugar onde você sentava no bar e, quando sua hora chegava, podia caminhar normalmente até o palco. Quando terminava a apresentação, descia, tirava o suor do rosto e então caminhava de volta ao bar pra tomar mais uma cerveja". Seu ex-companheiro de Talking Heads, Chris Frantz, comenta o entusiasmo da primeira vez que entrou lá: "os Ramones estavam se apresentando, e também uma versão inicial do Blondie, antes de se chamar Blondie. Pensei ‘cara, vim ao lugar certo’". No livro de Heylin, o autor traça um perfil do público cativo do CB’s: seu apelo era mais pro pessoal que curtia art-rock do que aquela "brigada ‘let’s rock’", "aqueles tipos que saiam mais pra se divertir, público regular do Max’s, eram menos rigidamente divididos". Alan Vega, frontman do Suicide, confirma: "Todo mundo do Brooklyn, punks do Queens, punks do Bronx, punks de New Jersey, ... Esse era o público do Max’s quando eram adolescentes. Nós também atraíamos o pessoal mais ‘art’, que nos odiava mais do que ninguém. Ironicamente, eles foram os caras que mais trouxeram encrenca ... O CB’s atraía mais essa ‘art crowd’, o pessoal mais intelectualizado, sem nenhuma dúvida. O Max’s atraía mais os garotos do Brooklyn ... a ‘art crowd’ não ia ao Max’s". Isso na primeira fase, a que pegou justamente a geração que renovou o rock americano nos anos 70; a segunda, já nos anos 80, é basicamente aquela em que as matinês hardcore sustentavam a casa: Sick of It All, Agnostic Front, Cro Mags, Murphy’s Law. Os lendários Bad Brains também desfilaram sua fúria por lá, em apresentações antológicas (inclusive encontráveis no Youtube). Mas com o tempo a violência tomou conta do local e a cena dispersou-se.

Como tudo o que é bom um dia termina, a casa de número 315 da Bleecker Street um dia fechou as portas – precisamente em 15 de outubro de 2006, após um concerto final de Patti Smith em que teve "parabéns a você" a Flea, dos Red Hot Chilli Peppers (que era convidado do show), Patti alternando o refrão de ‘Gloria’ com os versos "Hey! Ho! Let's Go!" em homenagem aos Ramones, o guitarrista do Television, Richard Lloyd, subindo ao palco pra tocar algumas canções, e com Patti, na canção final, ‘Elegie’, lendo uma lista de artistas já falecidos que passaram pelo palco do CBGB’s. Entre os mortos que fizeram a história do local, está o próprio fundador, Hilly Kristal, que foi-se desta em 28 de agosto de 2007, depois de lutar contra um câncer de medula – e não sem antes lutar pra manter aberto o próprio CBGB, já que os proprietários do local (o Comitê de Residentes do Bowery, que atende aos sem-teto do distrito novaiorquino) exigiam uma fortuna de aluguel e a ação foi parar na justiça. Kristal perdeu – e com ele toda a comunidade artística da cidade. Chhetah Chrome, dos Dead Boys, lamentou o fato ao New York Post: "Manhattan perdeu sua alma para os lordes da grana". Hoje, o espaço é ocupado pelo designer de moda John Varvatos. O velho e decadente prédio do Bowery, com o passar do tempo, virou, literalmente, fashion.

No final do mês passado, o Tribeca Film Festival exibiu o documentário ‘Burning Down the House: the Story of CBGB’. Dirigido por Mandy Stein, que mudou-se de L.A. pra Nova Iorque em 2005 justamente pra acompanhar a contenda judicial envolvendo Hilly e os proprietários do local que servia de morada para o berço da new wave novaiorquina. Além dele, as entrevistas incluem Tommy Ramone, Lenny Kaye, Sting, Henry Rollins, ... e ainda cenas de shows dos Dead Boys, Blondie, Bad Brains, Talking Heads, Television ... O foco, claro, é Hilly Kristal, lembrado com carinho por Chris Frantz: "sempre achei Hilly um cara maravilhoso, corajoso e filosófico. Para ele, não importava se sua banda fosse famosa. Desde que seu trabalho fosse sincero, Hilly lhe daria uma chance de mostrá-lo". Mas nem todo mundo gostou da película: o filho de Kristal, Dana, reclama a falta do crédito à sua sua mãe, Karen, que desenhou o famoso toldo e as camisetas do clube (Nota pessoal: eu tinha uma, branca, mas acho que deve ter-se desmanchado de tantas vezes que foi usada pra dormir) e também administrava as concorridas matinês de Domingo do CB’s. Well ...

O fato é que o CBGB’s marcou as vidas de quem o frequentou, nos anos 70, 80 e até 90. O lugar era tão festejado que foi retratado num episódio dos Simpsons, aparece de relance no clássico filme de gangues ‘The Warriors’, dirigido por Walter Hill em 1983 – a gangue Lizzies, do Bowery, leva ao seu apartamento três membros dos Warriors, e o apê é justamente do outro lado da esquina do CB’s –, e em todo o seu esplendor punk em ‘O Verão de Sam’, de Spike Lee, que se passa no escaldante verão novaiorquino de 1977, famoso pela explosão punk (a cena gravada no local, sob os acordes de 'Baba O'Reilly', do The Who, é arrepiante) e a onda disco, além do assassino em série que atormentava casais e é o tema central do filme. Influenciou espeluncas cult por todos os cantos do planeta: seus banheiros, ornamentados por grafites, geralmente sujos e onde podia acontecer de tudo, desde consumo de drogas as mais variadas até sexo selvagem; suas paredes cruas – por vezes descascadas -, cheias de cartazes de shows (e mais street art); o público formado por aquela saudável mistura de gente comum, artistas, freaks, junkies, nobodies; o local, pequeno, que facilitava a concentração do público e criava uma intimidade entre as bandas e a audiência, ... tudo isso influenciou, por exemplo, o Ocidente e o Garagem Hermética (o primeiro e original, aquele do Leó Felipe e do Ricardo, que fechou as portas na década passada).

Bom, quanto ao meu sonho que se realizou naquela noite de dezembro de 93 (ou janeiro de 94, damned memory!), posso dizer que já na entrada dei de cara com o disco de ouro do Helmet, escposto numa parede. Peguei uma Heineken e postei-me no balcão do bar. Primeiro, tocaram os tais 360’s, que faziam um som pop, melódico e barulhento. Simpáticos, mas nada demais. O vocalista, um alemãozinho com cara de skatista – street wear discreta, mas daqueles tipos assim como os Beastie Boys, guri bem criado no upper side de Manhattan, e que um dia resolveu curtir sua onda punk –, mal terminou o show, pegou sua mochila e saiu do palco andando normalmente. Depois, entrou o tal Vodka, um trio fazendo um som que unia uma certa levada funk ao clima noisy/etéreo que fez a fama de várias bandas da big apple desde o início dos anos 90. Achei bacana, e até puxei papo com a baterista, muito legal – e que exibia um suspeitíssimo cortezinho em um dos braços. Disse que esperavam gravar o primeiro disco em breve, mas que eu podia procurar nas lojas do Village um single com três músicas do trio (achei ‘My Name is Dave’ dias depois. Dias depois, também descobri que a moça em questão, a batera Celia Farber, escrevia críticas pra revista Spin). Por fim, Band of Susans. Do caralho, um dos melhores shows que vi na América naquele ano (e que teve ainda Iggy Pop lançando ‘American Caesar’, Neil Young com a companhia de Booker T & The M.G.’s, os P-Funk All Stars de George Clinton completinhos – e não com elenco reduzido, como foi aqui em POA no Free Jazz, três anos depois –, Diamanda Galás entoando blues dos infernos ao piano, ...)! Além da influência noisy citada e das duas guitarras fazendo contraponto uma a outra, das ambiências próximas ao som shoegazer do My Bloody Valentine, o quinteto tinha muita energia. Das duas Susans originais, só restava então a Stenger (gente fina pra cacete, também: bati um papo com ela: "sou brasileiro, infelizmente nenhum disco de vocês foi lançado lá ainda, blá blá blá, blá blá blá ..."), vocalista e baixista, que dividia com o também vocalista e guitarrista Robert Poss – estudante da música de vanguarda de John Cage – o conceito do som do grupo. O show que eu vi foi pra promover o quarto álbum da banda, ‘Veil’, lançado em 1993 mesmo. Claro que trouxe na bagagem o disquinho também. Infelizmente, a banda já não existe mais: encerrou as atividades em 1996 – o título irônico de seu derradeiro álbum, lançado um ano antes, era ‘Here Comes Success’.

Depois do show, voltei pro albergue feliz da vida: nem a facada do taxista nem os chatos/palhaços/trouxas/babacas franceses que ocupavam meu quarto e não deixaram ninguém dormir aquela noite seriam capazes de alterar o meu humor. Ainda voltei lá um dia depois, pra visitar o CBGB Record Canteen, a loja de discos e café que localizava-se no número 313 – a portinha ao lado –, um espaço também usado pra shows de menor porte. Nessa noite, tocava o maluco John Zorn, que ia mandar ver seu noisy-jazz, mas resolvi não pretigiar. Depois de ouvir, na entrada do lugar, ‘Flying High (In the Friendly Sky)’, linda canção do ‘What’s Goin’ On’, do Marvin Gaye, me deixei levar pela doçura da melodia e entrei numa espécie de transe, me sentia como se estivesse pisando nas nuvens. Ainda levei a camiseta e tentei puxar conversa com a menina tatuada que atendia no local, mas confesso que, embora até solícita, ela me assustou: era bem aquele tipo wild, rude, cheio de veneno que eu imaginava parte típica da fauna do local. Well, hora de me recolher. A noite tava ganha, a viagem tava ganha. Acho que se eu vejo esse documentário sobre o CB’s hoje, eu pago mico.




O fotógrafo era (é) amador, mas o lugar era do caralho

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Magnéticos Galáticos (1) – Roberto Rosselini

É amplamente discutível se o impactante ‘Roma, Cidade Aberta’, lançado em setembro de 1945 logo após a guerra, e filmado às escondidas em janeiro do mesmo ano – com o conflito em curso, portanto, e as ruas da cidade eterna ainda sob a ocupação das tropas nazistas –, pode ser considerado, de fato, o primeiro representante do neo-realismo italiano na história do cinema. ‘Obsessão’, estreia de Luchino Visconti tomando por base o romance noir ‘O Destino Bate à Sua Porta’, de James M. Cain, e lançado três anos antes, já trazia várias características do movimento, como as filmagens em locação, o uso da luz natural e o retrato da vida dura das classes menos favorecidas. ‘Roma’, porém, ampliou a coisa: o uso de atores não-profissionais, a linguagem das ruas, as filmagens progredindo à medida em que o convívio com o povo, seus costumes, mazelas e dialetos iam fornecendo subsídios aos roteiristas, a câmera nervosa passeando pelas ruas castigadas da cidade devastada, registrando histórias de gente simples quase como se fosse um documentário, tudo isso fez com que o filme tenha adquirido, imediatamente, o justo reconhecimento de um marco do cinema, condição que sustenta até hoje, e também servir de referência para várias outras correntes – a nouvelle vague, os filmes iranianos dos anos 90, o cinema novo brasileiro e a estética da fome glauberiana – e o trabalho de cineastas do primeiro time – do mestre indiano Satyaji Ray ao pai do filme independente americano, John Cassavetes, passando por Martin Scorsese, que dedicou quase metade de seu documentário ‘Minha Viagem à Itália’ só ao filme e a seu diretor. O que nos permite afirmar, aí, sim, com mais segurança, que dificilmente o posto de pai espiritual da criança vai para outra pessoa que não o realizador de ‘Roma, Cidade Aberta’.

Roberto Rosselini nasceu em oito de maio de 1906 – 103 anos completados na última sexta-feira, portanto – na capital italiana, em família rica. O amor pelo cinema já veio de casa, a perfeita materialização do sonho de todo o cinéfilo: seu pai era dono da primeira sala de exibição construída em Roma, o que, claro, lhe garantiu entrada livre em todas as sessões da casa. Mais adiante, começaria a trabalhar na indústria do filme sonorizando películas, e não tardou a espraiar-se a outras atividades, inteirando-se de todo o processo cinematográfico. Aos 20 anos, assina o primeiro documentário, ‘Prélude à l'aprés-midi d'un faune’, e três anos depois, já viria a primeira polêmica de sua carreira: em 1940, é chamado para ser o assistente do diretor Francesco De Robertis, em ‘Uomini Sul Fondo’ (‘S.O.S. Submarino’), um filme sobre os então últimos avanços dos submarinos de guerra, feito com a cooperação da marinha italiana. Até aí, nada de (muito) anormal – a não ser o fato de que a Itália estava então sob gerência fascista, e não precisa ser muito perspicaz pra imaginar que um filme realizado pra ressaltar as qualidades de um aparelho de guerra e a bravura dos militares italianos e ainda por cima feito sob os auspícios do Ministro da Defesa de Mussolini não deve ser simplesmente uma obra de mero entretenimento, desprovido de intenções outras. Mas o problema maior mesmo foi que o jovem Rosselini mantinha relações de amizade com ninguém menos que o filho do Duce (ai!), Vittorio, e mais: suspeita-se que justamente por conta da camaradagem é que Roberto descolou o trabalho, em detrimento de outros candidatos. O certo é que com a indústria controlada pelos fascistas não havia outro jeito de trabalhar, e assim foi seguindo Rosselini, que assinou, sim, projetos de encomenda: a trilogia inicial de sua carreira, formada por ‘La Nave Bianca’ (de 1941, na verdade considerado mais um trabalho de De Robertis, que assina como co-roteirista e supervisor), ‘Un Pilota Ritorna’ (1942; aqui, o supervisor é o próprio Vittorio Mussolini, escondido sob o pseudônimo de Tito Silvio Mursino) e ‘L’Uomo della Croce’ (1943), têm como heróis pilotos fascistas. Mas se é verdade que a história do cinema registra o nome de Roberto Rosselini nestes filmes de propaganda, é também verdade que logo, logo, o cara daria provas consistentes de estar, afinal, do lado certo da cerca.

Junto com seus amigos Federico Fellini e Aldo Fabrizi, por volta de 1943, Rossellini já tramava um filme que mostrasse a vida dura do povo sob o regime totalitário (na verdade, o fascismo já tinha oficialmente ido à lona, quem dava as cartas agora eram as tropas de Hitler), e, pra isso, a câmera teria que transitar pelas ruas. ‘Roma, Cidade Aberta’, então, foi feito abaixo de extremo mau tempo: o financiamento veio por empréstimos de amigos, os rolos de filme tiveram de ser comprados no mercado negro, as filmagens foram feitas em segredo (não é difícil imaginar que Rosselini e equipe – que incluía diversos membros da resistência ao regime – arriscaram o pescoço na empreitada, portanto) e o que era filmado, obviamente, tinha de ser imediatamente escondido. Mas o resultado valeu o risco: a crueza das imagens e a força das histórias de gente comum impressionam até hoje. Os prêmios conquistados no cenário internacional, pra variar, foram modestos perto do resultado atingido artisticamente: a película levou o grande prêmio em Cannes no ano seguinte, é verdade, mas além disso, só teve uma indicação para melhor roteiro (para Fellini e Sergio Amidei) pela Academia hollywoodiana, e premiações do National Board of Review como melhor filme estrangeiro e melhor atriz para Anna Magnani, então mulher de Rosselini. Em compensação, o público abraçou o filme até onde era de não se esperar: ‘Roma’ foi um dos primeiros filmes estrangeiros do pós-guerra a cativar o público norte-americano, e muito do interesse que surgiu posteriormente pelo cinema europeu deve-se a ele. A crítica também encantou-se: o pessoal dos Cahiers Du Cinèma, do editor André Bazin e os futuros críticos Jean-Luc Godard e François Truffaut, recebeu a película entusiasticamente – Truffaut e Godard reconheceriam mais tarde a enorme influência da obra em suas carreiras já como realizadores, e o primeiro não cansava de dizer que "Rossellini foi o homem mais inteligente que conheci na vida". Na sequência de ‘Roma, Cidade Aberta’, vieram outros dois clássicos do neo-realismo, que completam a sua famosa trilogia da guerra: ‘Paisà’ (1946) e ‘Alemanha, Ano Zero’ (1948), também utilizando atores não-profissionais, luz natural, filmagem em locações ... ‘Alemanha’, por sinal, impressiona tanto quanto ‘Roma’ no que diz respeito ao drama humano (é ainda mais cruel que seu predecessor) e na crueza das imagens (a câmera registra uma Berlim transformada quase que inteiramente em escombros). Os dois primeiros filmes da trilogia impressionaram também alguém que mudaria a vida pessoal de Rossellini.

Ingrid Bergman já era estrela do primeiro time de Hollywood em 1948: da estreia, com a refilmagem americana do sucesso sueco ‘Intermezzo’, ao papel-título da heroína ‘Joana D’Arc’ de Victor Fleming, ela colecionou, em menos de uma década, clássicos e hits de bilheteria como ‘Gaslight’, de Cuckor, a versão de ‘O Médico e o Monstro’ (também a cargo de Fleming, com Spencer Tracy fazendo a dupla Jekyll/Hyde), o romance de guerra ‘Por Quem os Sinos Dobram’ (baseado no texto de Hemingway e com Gary Cooper como partner), dois Hitchcocks, ‘Quando Fala o Coração’ e ‘Interlúdio’ (faria ainda um terceiro, ‘Sob o Signo de Capricórnio’, um ano depois), convertendo-se na musa do mestre do suspense, e, claro, ‘Casablanca’. Comovida após assistir ‘Roma’ e ‘Paisà’, decidiu que tinha que trabalhar com aquele diretor, e escreveu a seguinte carta a ele:

"Caro sr. Rosselini,
Eu assiti seus filmes ‘Roma, Cidade Aberta’ e ‘Paisà’, e gostei demais de ambos. Se você precisar de uma atriz sueca que fala inglês muito bem, que não esqueceu seu alemão, que não é muito incompreensível no francês, e em italiano sabe dizer apenas ‘ti amo’, estou pronta a ir fazer um filme com o senhor".

O auto-convite não só foi aceito, como em breve Ingrid estaria trocando vários "ti amo" diariamente com Roberto. A união, inclusive, não demoraria a redundar numa gravidez da estrela. Só houve um pequeno problema: ambos eram casados quando iniciaram o romance, e a opinião pública da época, que tinha uma imagem quase beatificada de la Bergman, não gostou de saber do caso extra-conjugal da dupla. Assim, a partir de ‘Stromboli’ (1950), Ingrid teve de ficar lá pela Itália mesmo pra poder trabalhar, vindo a tornar-se a maior vítima de banimento (por questões ligadas ao foro íntimo, pois o estrago do McCartismo, óbvio, foi muito mais grave) na história da indústria do cinema americano. E o pior é que o novo casal, mesmo que tenha oficializado a união, após os divórcios de Ingrid e o médico Peter Lindstrom e de Roberto e da estrela de ‘Roma, Cidade Aberta’, Anna Magnani, tampouco teve sossego na Itália: seguiram trabalhando juntos e produzindo clássicos como ‘Europa ‘51’ (1952) e ‘Viagem à Itália’ (1953), mas o estrago na imagem estendeu-se também por lá, e os filmes do casal foram fracassos comerciais retumbantes. Ingrid só obteria trégua de Hollywood em 1956, com ‘Anastacia’, e Roberto, ... bem, Roberto foi filmar na Índia a convite do Primeiro Ministro Jawaharlal Nehru, que pretendia dar uma sacudida na produção audiovisual de seu país. Acontece que lá, mulherengo incorrigível que era, botou o olho na roteirista Sonali Das Gupta, e de novo a opinião pública não demorou a saber. Resultado: escândalo de novo, agora na Índia e em Hollywood. O Primeiro Ministro, então, foi obrigado a pedir que Rossellini se retirasse do país, e assim o cineasta o fez – mas levando consigo, entretanto, Sonali e o filho dela, a quem adotou. Acabou um casamento e iniciou outro, no caso o terceiro e último.

Se é verdade que a partir dos anos 50 a carreira de Rossellini não registraria mais sucessos de público do porte de sua famosa trilogia da guerra – alguns trabalhos posteriores, inclusive, foram lamentáveis ocasos -, é também real que o pai espiritual do neo-realismo ainda legaria um grande filme com tema correlato, ‘De Crápula a Herói’ (‘Il Generale Della Rovere’, de 1959), com Vittorio De Sica no papel de um malandro que vive de enganar pobres familiares de prisioneiros de guerra, fazendo-os acreditar que tem contatos no governo que podem livrá-los, usando a grana extorquida pra pagar sua dívidas de jogo (e, claro, endividar-se de novo), até que um dia chega a hora de mostrar que também pode ter grandeza moral. A partir daí, associa-se a um de seus pupilos da nouvelle vague, Jean-Luc Godard (é co-roteirista de 'Tempo de Guerra'/'Les Carabiniers'), roda episódios de filmes coletivos (‘RoGoPaG’, com Godard, Pasolini e Ugo Gregoretti, 'Nós, as Mulheres', com Visconti, Luigi Zampa e Gianni Franciolini), e então lança-se à série de retratos de figuras históricas: ‘Blaise Pascal’, ‘Sócrates’ (ambos de 1971), ‘Santo Agostinho’ (1972), 'Descartes' (1973), ‘Ano Um’ (de 1974, que refaz a trajetória de Alcide de Gasperi, líder democrata cristão que foi membro importante da resistência ao fascismo na primeira metade do século passado), finalizando com ‘Il Messia’ (finalizado em 1975, mas lançado apenas em 1978, um ano após de sua morte, de ataque cardíaco), que mostra Jesus Cristo não como uma criatura divina, mas um ser humano comum, apenas dotado de profunda consciência moral. Estes últimos trabalhos, em sua maioria, foram feitos para a televisão, embora alguns ainda tenham sido lançados no cinema depois.

De Rosselini, é possível encontrar nas locadoras quase todos os principais filmes, a começar pelo tríptico ‘Roma, Cidade Aberta’, ‘Paisà’ e ‘Alemanha, Ano Zero’, todos lançados pela Versátil, que também pôs no mercado ‘De Crápula a Herói’, ‘Onde Está a Liberdade?’ (seu único filme com o mítico Totò, que faz um presidiário que, 23 anos após cumprir pena, é solto, mas logo chega à conclusão de que no xadrez há mais solidariedade) e anuncia a caixa ‘Os Filósofos de Rosselini’, que contém ‘Sócrates’, ‘Santo Agostinho’, ‘Descartes’ e ‘Blaise Pascal’, também encontráveis avulsos. Também estão previstos, pela mesma distribuidora, ‘Ano Um’ e ‘Europa ‘51’ – ‘Stromboli’, já lançado, encontra-se fora de catálogo. Outra distribuidora, como a Silver Screen, lançou ‘Viagem à Itália’, ‘O Medo’ (ambos com Ingrid Bergman) e ‘O Santo dos Pobrezinhos’, produção ainda nos moldes do neo-realismo, sobre a vida de São Francisco de Assis. O problema é que essa distribuidora, ao contrário da Versátil, não prima lá muito pelo capricho de seus produtos: apesar do catálogo excelente de títulos, não é raro encontrar erros de tradução, legenda em português em cima de legenda em inglês, discos que trancam (comprei e troquei quatro vezes ‘Dias de Ira’, de Carl Dreyer, até que desisti e parti pra outra) e erros grotescos de português nos textos contidos nos extras e até nas capas (sente o drama: o citado filme sobre São Francisco aparece como ‘O Santo dos Pobrizinhos’!?!?!?!?!?). De qualquer maneira, os principais trabalhos do mestre italiano, verbete inquestionável da história do cinema mundial, tão aí pra quem quiser ver – ou seja, não tão arriscados a entrarem aqui na seção ‘Um dia, numa locadora perto de você’. Uma pena estar esgotado o livro ‘Fragmentos de uma Biografia’, publicado no Brasil pela Nova Fronteira, em 1992 – e postumamente (e inacabado) na Itália em 1978. As reflexões de Rosselini, divididas em sete capítulos (‘A Sociedade do Espetáculo’, ‘Da ignorância’, ‘Italianissimo’, ‘Aos franceses’, ‘Famílias’, ‘Sobre uma caixa de prata’ e ‘Índia’) permanecem profundamente atuais.

Rossellini, entre De Sica e Fellini: sua contribuição ao cinema moderno é incalculável

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Paradão da Semana (04 a 08/05/2009)

It’s Catching Up (Nomeansno)
Parchment Farm (Blue Cheer)
Ballroom of Mars (T-Rex)
Tell Me When It’s Over (Dream Syndicate)
Heaven Up Here (Echo & The Bunnymen)
World (New Order)
Road of Many Sides (Herbaliser c/ The Dream Warriors)
A Change is Gonna Come (Sam Cooke)
The Piano Has Been Drinking (Not Me) (Tom Waits)
Terminal Preppie (Dead Kennedys)
Sabbra Cadabra (Black Sabbath)
Loose (Stooges)
Nausea (X)
Sleeping Gas (Teardrop Explodes)
Waiting for the Night (Depeche Mode)
The Sleepless (Red Snapper)
I Love You More Than Words Can Say (Otis Redding)
Cortez the Killer (Neil Young)
Unsung (Helmet)
Love Like Blood (Killing Joke)
Crazy Love (Colder)
Refreshment Pavillion Theme (Enon)
John Wayne Was a Nazi (MDC)
For Want Of (Rites of Spring)
Black Lodge (Anthrax)
Silver Machine (Hawkwind)
Teen Competition (Redd Kross)
Do Ya Think I’m Sexy? (Revolting Cocks)
Atomic Dog (George Clinton)
I Feel Love (Donna Summer)
Girl U Want (Tank Girl Version) (Devo)
Go (Moby)
The Blood (Cure)
Stigmata (Ministry)
Prove You Wrong (Prong)
Satelitte (TV On the Radio)
Assassement (Beta Band)
Subject to Change (The Faith)
Gluey Porch Treatments (Melvins)
Itchykoo Park (Small Faces)
Some Girls are Bigger Than Others (Supergrass)
Stroll On (Yardbirds)
Move On Up (Primal Scream)
Brimful of Asha (Norman Cook remix) (Cornershop)
Hey Boy, Hey Girl (Chemical Brothers)
Paid in Full (The Coldcut Seven Minutes of Madness Mix) (Eric B & Rakim)
Ray of Light (Madonna)
Railing (Roni Size & Reprazant)

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Eu e meu brinquedo (8) - ROBERTO ROSSELINI

"Para criar o personagem que se tem em mente, é necessário ao diretor engajar-se numa batalha com seu ator que geralmente termina com a submissão ao desejo do ator. Como não tenho o menor desejo de gastar minha energia em uma batalha como essa, eu apenas uso atores profissionais ocasionalmente".

...

"A imagem é algo totalmente diferente. É totalmente inocente. Há nela algo de virginal.

Uma ideia estabelecida determina que a imagem é subjetiva. Isto é falso. Em todo o caso, podemos dar-lhe elementos suficientes para que alcance grande subjetividade.

No meu filme Il Messia, a maneira pela qual os apóstolos-pescadores vão pescar é tão importante para compreender o pensamento de Jesus quanto sua palavra. Inversamente, para que essa palavra adquira sua significação total, é necessário que o homem que se expressa seja situado em seu contexto histórico preciso.

Por esta razão, dou tanta importância aos detalhes em meus filmes, e também, por isso, utilizo planos-sequência em que posso introduzir uma quantidade de mensagens suficientes para permitir a todos uma abordagem segundo sua própria natureza.

Censuram-me muito por não fazer nenhum esforço para seduzir e por filmar 'frio'. É bem verdade que recuso, acima de tudo, o falso calor e que nunca tomo o espectador pelo braço para dizer-lhe: 'Olhe assim, pense assim; atenção, agora você tem de se emocionar!'.

Quero que as coisas gerem outras coisas, este é o grande debate."

...

"Foi para trazer, na medida de minhas modestas possibilidades, a primeira pedra destinada à construção de um tal projeto que, há 15 anos, inaugurei a série de meus filmes 'educativos': Pascal, L'Etat del Ferro, Il Messia, A Tomada do Poder por Luís XIV, etc.

Antes, eu também havia produzido espetáculos à minha maneira. Roma, Cidade Aberta continha uma análise da sociedade, mas uma grande ambiguidade de ordem estética flutuava no filme. Era um cinema inconsciente. No dia em que tomei consciência do que havia feito e do que queria fazer, retirei-me do sistema e abandonei esse mundo de aparências, que se vinga ao me considerar um fantasma.

'Rosselini, mas ainda existe?', um dos maiores distribuidores italianos perguntava a um de meus amigos, há alguns meses. O que se equivalia dizer: 'se nem Fulano nem Fulana fazem sua distribuição, e se não vou financiá-lo, é que está morto!' Atitude lógica. Está claro que essas pessoas e eu não temos o mesmo ofício."

(Roberto Rossellini, cuja data de nascimento completa hoje 103 anos. Pai espiritual do neo-realismo italiano, com o seminal 'Roma, Cidade Aberta', de 1945, migrou mais tarde para a televisão, onde, em vez de buscar um confortável refúgio, continuou experimentando. A editora Nova Fronteira lançou por aqui, em 1992, seu 'Fragmentos de Uma autobiografia', contundente manifesto publicado já postumamante em 1977, e dividido em sete ensaios: 'A sociedade do espetáculo', 'Da ignorância', 'Italianissimo', 'Aos franceses', 'Famílias', 'Sobre Uma Caixa de Prata' e 'Índia'.)


Um pedaço da história: 'Roma, Cidade Aberta'

Assim foi Escrito (4) - A Volta do Parafuso (Henry James)

"A revelação da maneira como Flora ficou atingida pelo que via me surpreendeu, em verdade, muito mais do que surpreenderia se ela se mostrasse agitada, pois uma demonstração direta de terror evidentemente não entrava nos meus cálculos. Preparada e posta na defensiva mercê da nossa perseguição, ela reprimia toda emoção capaz de a trair. Fiquei, por isso, muito abalada com o primeiro indício de uma atitude para mim inesperada. Sem ao menos fingir que olhava na direção do prodígio, que eu denunciava, mas, em vez disso, voltar-se para mim com uma expressão absolutamente nova e sem precedente, que parecia ler em mim, acusar-me julgar, sem que um só músculo se movesse no seu rostinho cor-de-rosa – tudo isso, de certa forma, convertia a meninazinha na própria presença que me podia levar a estremecer.

E estremeci, certo de que ela agora via como nunca antes; e impelida pela necessidade imediata de defender-me, apelei apaixonadamente para o seu testemunho:

- Ela está ali, infeliz criatura! Ali, ali, ali, e você sabe tão bem como eu!

Eu dissera pouco tempo antes a Mrs. Grose que, nesses momentos, Flora já não era uma criança, mas uma mulher velha, muito velha, e nada para confirmar de maneira mais evidente essa declaração do que o modo pelo qual, por toda resposta, ela simplesmente me apresentou, sem a menor concessão ou admissão, uma aitude de censura cada vez mais acentuada que, de súbito, se fixou inteiramente.

Nessa altura eu estava – se é que posso reunir os traços esparsos dessa cena – ainda mais horrorizada por aquilo que posso chamar com justeza de ‘seu jogo’ do que por todo o resto, se bem que, simultaneamente, eu tivesse percebido que agora Mrs. Grose estava indisfarçavelmente contra mim. Em todo caso, no momento, tudo se dissipou, para só me deixar sensível ao rosto congestionado e ao ruidoso protesto da minha velha companheira, onde explodia a sua violenta desaprovação:

- É possível ação mais horrorosa, miss? Onde diacho a senhora está vendo a mínima coisa?
"

(A VOLTA DO PARAFUSO, Henry James. Publicada em 1898, essa novela curta é daquelas obras em que as expressões que se usam para qualificar-lhe o gênero – "literatura fantástica" e "romance gótico" são as mais manjadas –, são insuficientes. As interpretações à obra, uma das mais conhecidas de James – também autor de ‘Retrato de Uma Senhora’, ‘Daisy Miller’, ‘Um Incidente Internacional’, ‘Washington Square’, ‘A Taça de Ouro’ –, são as mais variadas. A história, contada em primeira pessoa por um narrador desconhecido que lê um manuscrito de uma governanta já falecida, refaz a convivência dessa preceptora com duas crianças órfãs, Miles e Flora, por quem o tio, um homem rico porém durão, sente-se responsável, mas com quem não quer maior contato. Assim, a governanta obtém carta branca para educar a dupla, que vive em uma grande casa de campo. Tudo vai bem até que Miles é expulso do colégio – o garoto não toca no assunto, mas ela desconfia que há algo muito sério por trás. Pouco depois, duas estranhas criaturas passam a frequentar os jardins da casa, aparentemente sem que ninguém perceba a não ser a governanta, e logo ela vai saber que, antes de trabalhar ali, Miss Jessel, sua antecessora, e o amante, Peter Quint, morreram sob circunstâncias misteriosas. Ela continua a ter visões do casal, enquanto todos os outros ocupantes da casa ignoram sua suposta presença, e então passa a desconfiar que as crianças lhe mentem quando dizem que não vêem nada. Há quem faça uma leitura freudiana da trama (os fantasmas estão só na cabeça da protagonista); há quem veja implicações sócio-políticas (seria uma metáfora ao imperialismo britânico, já que na introdução há referências à Índia; ao opressor sistema patriarcal – as visões da governanta seriam uma reação maníaca à maneira com que foi criada pelo pai; à repressora era vitoriana – o romance foi publicado no finalzinho do período: a preceptora começa a perturbar-se à medida que toma conhecimento do relacionamento picante e sem amarras do casal de falecidos); e há também quem simplesmente veja a história como um tradicional conto de fantasmas, uma vez que, além de grande apreciador do gênero, nos diários de James há apenas uma menção à intenção inicial de trabalhar ficcionalmente um "causo" que ouviu certa vez do arcebispo de Canterbury. O certo é que ‘A Volta do Parafuso’ é daquelas histórias envolventes, que prendem da primeira à ultima página. Teve várias versões para a TV e o cinema – a mais conhecida, o ótimo ‘Os Inocentes’, de Jack Clayton, de 1961, com a soberba Deborrah Kerr no papel principal – e é referência pop até hoje – em uma cena de ‘Lost’ em que a escotilha está prestes a explodir porque os números não foram digitados no sistema a tempo, o escocês perturbado Desmond diz para que alguém aperte, um botão de segurança escondido atrás de uma prateleira. Em que lugar? "Ali, bem atrás de ‘A Volta do Parafuso’". O americano de nascimento e inglês de adoção Henry James (1843-1916), um dos nomes da literatura do século XIX – não só em língua inglesa – era de uma família de notáveis: seu irmão, o filósofo William James, é o pai da psicologia americana; a irmã, Alice, notabilizou-se pelos seus diários, publicados postumamente, cheios de argutos comentários sobre a sociedade inglesa de sua época, e acabou virando uma espécie de ícone feminista; e o pai, Henry James Sr., foi conhecido teólogo.)

Clássica história de fantasmas de James, 'The Turn of the Screw' foi parar até no 'Lost'

Versinhos bacanas (18)

"I’m Waiting for the night to Fall
I Know what will save Us All
When everything’s dark
Keeps Us from the stark reality
I’m waiting for the night to fall
When everything is bearable
And there in the still
All that You Feel
Is tranquility
There is a star in the sky
Guiding my way with its light
And in the glow of the moon
Know my deliverance will come too soon
I’m waiting for the night ...
There is a sound in the calm
Someone is coming to harm
I press my hands to my ears
It’s easier here just to forget fear
And when I squinted
The World seemes rose-tinted
And angels appeared to descend
To my surprise
With half-closed eyes
Things looked even better
Than when they were opened
Been waiting for the night to fall
I knew that It would save Us All
Now everything’s dark
Keeps Us from the stark reality
Been waiting for the night to fall
Now everything is bearable
And there in the still
All that You Feel
Is tranquility."


(Waiting for the Night, DEPECHE MODE. A quinta faixa do melhor álbum do então quarteto inglês, ‘Violator’, de 1990, resume bem o clima de solidão, descrença e abandono da virada dos anos 80 para os 90 e também o momento soturno por que passava a própria banda: o vocalista Dave Gahan já começava a se afundar na heroína, o que o levaria a uma overdose quase fatal – houve quem falasse em tentativa de suicídio – cinco anos depois, mesma época da saída de Alan Wilder. ‘Violator’, além de recheado de grandes canções - os hits ‘Personal Jesus’ (depois regravada pelo men in black Johnny Cash), ‘Policy of Truth’ e ‘Enjoy the Silence’, clássico das pistas e não só, mais ‘World in My Eyes’, ‘Halo’ e ‘Clean’, que fecha o álbum deixando no ar uma impressão de calmaria apenas momentânea –, tem como um de seus trunfos a produção do excelente Flood, que aparou as arestas e deu uma cara definitiva à guinada dark já sugerida em ‘Music for the Masses’ e ‘Black Celebration’, deixando pra trás o synth pop romântico e sem maiores consequências dos primeiros discos. Tá anunciado que o Depeche Mode vem ao Brasil em outubro, inicialmente só pra shows no Rio e em SP. Em função de cancelamentos recentes de apresentações de grupos contemporâneos seus – Duran Duran – e de filhotes de primeira hora – Nine Inch Nails –, e dada a tacanheza dos produtores de shows locais, não é de se esperar que possam apear aqui pela província. Uma pena. O DM acaba de lançar seu 14º álbum de carreira, ‘Sounds of the Universe’ – mais uma vez elogiado.)



O Depeche no início dos 90, com Dave Gahan em fase"eu também sou grunge": lama existencial rende grande música